Encore

No meu diálogo com o Luís a propósito do "caso Pinamonti" (que tem sido a três porque o Tiago Ivo Cruz também participa, e ainda bem), chegámos ao ponto em que já não se confrontam opções de política cultural, mas critérios estéticos de encenação.
É um terreno mais escorregadio e, portanto, mais interessante.
Nos comentários, ambos discutem o ciclo de Wagner encenado por Vick no S. Carlos, mas também o papel do encenador na ópera actual e até se certas encenações mais originais podem considerar-se ainda fiéis à obra. Faço notar que são três planos diferentes.
1. O Wagner de Graham Vick é discutível? Indiscutivelmente.
Coloca dificuldades aos cantores? Com certeza.
Tem problemas de acústica? Sem dúvida.
A estas críticas nada posso responder, excepto que a encenação de Vick é um portento de criatividade e leitura atenta dos "Nibelungos" (de todo o ciclo, porque foi expressamente criada para um programa coerente e não para espectáculos avulsos, como se fez tantas vezes no S. Carlos). Nunca houve um Wagner assim em Lisboa - e só não digo em Portugal porque soaria a provinciano. E olhem que eu nem gosto muito de Wagner. Acontece-me o mesmo que ao Woody Allen: sempre que o ouço, fico com vontade de invadir a Polónia...
2. Mas terá sido a encenação tão criativa que acabou por trair a "verdade" das obras, tornando-as outra coisa que não Wagner?
Como o Luís, também eu acredito que há um limite para as encenações, além do qual a obra pode ser seriamente comprometida. Mas esse limite não está nas intenções ou indicações do autor: está na própria música. Se a encenação põe em causa uma interpretação fiel à partitura, então não serve.
Foi o que aconteceu com o Wagner de Vick? Não me parece. Não foi o Wagner de Bayreuth (se é que há um Wagner de Bayreuth), mas também não foi um Wagner "de câmara"... Em nenhum momento senti que se estivesse a sacrificar o "Anel" aos caprichos do encenador ou aos condicionalismos da orquestra.
Não sei, claro, se este foi um Wagner que Wagner aprovaria. Mas sei, e o Luís também sabe, que se a aprovação do autor fosse o critério para montar uma ópera, talvez nunca se chegasse a ouvir nenhuma.
(cont.)
publicado por Pedro Picoito às 17:05 | comentar | partilhar