O aplauso


Nem vale a pena esperar do primeiro-ministro qualquer coisa remotamente parecida com uma condenação das maravilhas de oratória expelidas ontem por Vital Moreira e por Capoulas Santos. Qualquer candidato a grunho sabe que pode sempre contar com o silêncio aplaudente de Sócrates quando perder o pudor e abrir a boca. E como não? É esse o estilo que o primeiro-ministro aprecia. E tem praticado nos últimos quatro anos. Não esqueçamos que Sócrates nunca pôs na linha as suas criaturas mais desbocadas. O que é compreensível - o criador reve-se nos vagidos das suas criaturas. É humano.
E como se sabe, a tolerância (quando não o prémio) de certos "comportamentos" ou discursos, por parte daquele que devia zelar para que não acontecessem, só vai fomentar a sua reprodução. Entra-se num crescendo de insolência, mau-gosto, quando não má-criação. A deselegância compensa.
É claro que há personagens que assumem melhor esse papel do que outras. Há sempre quem não tenha estômago para certos modi loquendi ou não se reveja neles. E esses são, como é da praxe, olhados com um desprezo indignado ou tratados abaixo de cão pelos cavernícolas de serviço.
Vital Moreira já se tinha referido às manifestações de rua como manadas (metáfora que diz muito), Capoulas falou ontem da trupe do PSD. Amanhã, poderá um deles falar dessa súcia do Bloco de Esquerda, da cambada do PCP ou desse gang do CDS/PP. Este é o tipo de linguagem incendiária que pode muito bem aquecer o Verão que aí vem. E aí não teremos apenas o calor das palavras, mas também o dos actos. É que o calor da linguagem política transmite-se muitas vezes à acção. Os cavalheiros em apreço deviam lembrar-se disso.
publicado por Carlos Botelho às 22:46 | comentar | partilhar