"Blade Runner": Ser ou não ser, eis a questão…


Não há dúvida de que Shakespeare sabia que perguntas vale a pena fazer; sabia quais não é possível não fazer.
Só assim se pode explicar que, depois de vinte e cinco anos e várias versões de Blade Runner, tantos esperassem esta “Director’s final cut” do filme de Ridley Scott, já referido no Cachimbo (e que já se encontra à venda em Portugal).
De facto, parece que a questão é saber se Deckard é mesmo um Replicante. Mas só é esta a questão se isso fôr o mesmo que procurar saber o que é ou não é humano; ou, também, saber se o medo é ou não condição da existência; se os factos que acontecem no tempo (no tempo de uma vida, no tempo da História) são apenas lágrimas na chuva…
Ao passar para o ecrã o livro de Philip Dick Do Androids dream of electric sheep?, Scott consegue uma dupla e rara proeza – a de ultrapassar o valor da obra literária, sem, no entanto, a atraiçoar. A riqueza e complexidade barrocas de Blade Runner – um filme que se “lê” por camadas, como acontece à fotografia que Deckard examina – tem o seu centro nevrálgico na visão (“the eye/I question”), ou não fosse o olhar que revela o eu.
Na era da chamada Pós-Modernidade – um tempo que nega o significado do Tempo – vale a pena rever esta fabulosa obra cinematográfica, que subverte a profecia distópica que ela própria faz, ganhando, para o seu protagonista, a tão desejada eternidade. E tudo isso se pode, ultimamente, resumir a um gesto, um gesto ilógico, disfuncional, não programado: o gesto gratuito, e, por isso, belo, de um Replicante que livremente poupa a vida do seu perseguidor.
Ver esta beleza: eis a questão. Eis a alternativa à miopia aguda dos génios Tyrell, falsos senhores deste nosso universo “high tech” e utilitarista que arrastou a noção de human being para a de human doing, a de conhecimento para a de competência, a de mestre ou professor para a de mediador.
publicado por Joana Alarcão às 17:31 | partilhar