Uma Certa Ideia de Europa


Encontrei num livrinho de Gadamer escrito já no final da década de 80 algumas considerações que, apesar de simples, mantêm toda a pertinência. Em particular, quando se discutem algumas versões do putativo "federalismo" europeu em construção.

«A Europa tem a experiência histórica mais rica, pois possui no espaço mais reduzido a maior diversidade e um pluralismo de tradições linguísticas, políticas, religiosas e étnicas, que tem de controlar desde há muitos séculos. A tendência actual para a unificação e a erosão de todas as diferenças não deve levar ao erro de que o enraizado pluralismo das culturas, das línguas e dos destinos históricos pode ou deve ser realmente reprimido. Numa civilização cada vez mais niveladora, a tarefa poderia antes consistir no inverso, a saber, em desenvolver a vida própria das regiões, dos agrupamentos humanos e do seu estilo de vida. A inospitalidade, com que o mundo industrial moderno ameça o ser humano, leva à demanda de uma pátria. (...)
Pergunta-se onde é que aqui têm ainda validade os ideais da humanidade esclarecida e da tolerância. Mas pode dizer-se mais alguma coisa: onde há força, há também tolerância. Tolerar o outro não significa em absoluto perder a plena consciência do seu irrenunciável ser. O que capacita para a tolerância é antes a própria força, sobretudo a força da própria certeza da existência».


Numa Europa que cada vez mais desiste de ser o que é, as tarefas que coloca a si mesma parecem ser, por um lado, ameaçadoras e, por outro, absurdas. No fundo, a posta que aqui escrevi há uns dias - "Europa para Gente Séria" - também era sobre isto.
publicado por Miguel Morgado às 19:19 | partilhar