É Saramago

José Saramago prepara-se para cometer um novo livro de «regresso aos escritos com a religião como protagonista», segundo o i. Vá-se lá bem saber o que isto possa querer dizer. Mas adivinha-se o nível intelectual da coisa, a medir por esta explicação que, sobre o fenómeno, o nosso crânio nobelizado dá à espanhola agência EFE: «Deus não é de confiança. Que Deus é este que para enaltecer Abel despreza tanto Caim?». Chama a isto ironia, mordacidade.

Vai daí, a jornalista da EFE pergunta ao crânio se ele não teme «nova crucificação», análoga à que diz que teve quando publicou o seu «evangelho». Resposta: «Alguns talvez o façam, mas o espectáculo será menos interessante. Os católicos não lêem o Antigo Testamento. Se os judeus tiverem uma reacção, aí já não me supreendia. Mas não compreendo como é que o povo judeu fez deste o seu livro sagrado. É um conjunto de absurdos», etc., etc.

Este crânio ignora, pelos vistos, que o povo judeu não existe, historicamente falando, antes do Livro a que se refere; que o Livro é a sua «constituição»; que a frase dele faz tanto sentido como esta: «Não compreendo porque é que os cristãos fizeram dos Evangelhos livros sagrados». Ou esta: «Não compreendo porque é que os muçulmanos fizeram do Alcorão um livro sagrado». Talvez porque o seu conhecimento das coisas mais elementares sobre o Livro e os judeus lhe escape totalmente. O que não o impede de anunciar que vai escrever sobre elas. E isso é mau? É pior: é Saramago.
publicado por Jorge Costa às 15:08 | comentar | partilhar