Sobre o futuro da Direcção Geral de Portugal

Depois disto, como é de regra, isto.

A negligência criminosa do Governo em relação à deterioração da situação orçamental - particularmente evidente em 2010, quando de qualquer Governo com um mínimo de sentido de responsabilidade se esperaria uma atitude maximamente vigilante em relação aos (já de si insuficientes) compromissos - tem implicações imediatas e mediatas na estabilidade ou instabilidade do sistema financeiro como um todo. A começar pelo custo a que este se financia, acompanhando a evolução do risco-país.

Conhecendo a absoluta incapacidade do Governo para propor ao país um programa de austeridade minimamente credível - basta ler os lamentos recorrentes dos governantes nos media, declarando-se forçados, acusando a torto e a direito todo o mundo e arredores da responsabilidade pelas medidas que são levados a executar, uma espécie de Governo convertido em Direcção Geral de Portugal, execrando em público a orientação de quem governa de facto -, conhecendo, dizia eu, que estou com pressa e dificuldades em fazer parágrafos curtos, essa inépcia inscrita no DNA socrático, sempre pensei que o detonador do colapso final fosse uma ruptura nas Finanças Públicas, com o Tesouro incapaz de aceder aos mercados. A banca viria acto contínuo complicar colossalmente o problema. Hoje tenho dúvidas em relação à sequência dos acontecimentos.

Em todo o caso, a criminalização à islandesa dos governantes, se não ressarcisse o país dos danos causados, dar-me-ia, pelo menos, alguma satisfação moral. Bastava uma operação simbólica e altamente selectiva: o primeiro-ministro e toda a equipa das Finanças. Com penas estritamente proporcionais. E poderia, quem sabe, ser um dissuasor futuro: os governos não podem destruir países e limitar-se, no fim, a perder eleições.
publicado por Jorge Costa às 11:09 | partilhar