Esperança?

O João Gonçalves recomenda esta posta do Pacheco Pereira e saúda-a como um regresso do mesmo aos "grandes posts". Não percebo a razão do entusiasmo. Sobretudo quando leio a última linha da conclusão de um texto sobre o Portugal "empancado". Não que eu não subscreva algumas daquelas observações. Não que eu duvide de que Portugal é um País "empancado". Mas ler que "É difícil viver num país sem esperança", ouvir que este é o grande remate e o grande problema, é demais para mim. Sucumbir a um lugar-comum, de mais a mais sem fundamento para ser comum, não recomenda ninguém.
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Para quem quiser saber a minha opinião sobre o assunto da "esperança", espreitem aqui (isto foi publicado no i em Março de 2010):

Na retórica política contemporânea, há poucos lugares-comuns mais piegas que o apelo à esperança. Desde que Obama ganhou as eleições, passou a ser invocada por especialistas sérios, comentadores sábios e candidatos a estadistas mobilizadores. Ninguém resiste a diagnosticar que Portugal, na mais miserável das crises, precisa de esperança. É uma espécie de palavra milagrosa que arranca povos à morte e produz vitórias arrebatadoras. Presume-se que quem a não pronuncia com frequência é aliado secreto das trevas e do desespero.
A coitada da esperança tem um passado glorioso. Antes de reclamada para a política, era virtude teologal, indispensável para a salvação da alma. Com o recuo da religião, politizou-se. Nalguns casos com efeito catastrófico, se recordarmos os messianismos políticos do séc. XX. A esperança na Revolução e na terra prometida pelo Líder deixou atrás de si um rasto de trevas.
Mais recentemente, a esperança converteu-se no recurso psicológico por excelência da modesta democracia representativa. Portugal, arrastado pela moda, não fugiu à regra. Sucede que Portugal precisa não de esperança, mas de vitalidade histórica. O país dispensa miragens equivalentes a transes colectivos capazes de levitar os povos acima de problemas e perigos e a ilusão de que se acreditarmos todas as ameaças desaparecerão. O que já não dispensa é energia moral para olhar nos olhos ameaças que pendem sobre si. Não pode prescindir da vitalidade que nos sustenta quando combatemos perigos concretos. Vitalidade histórica é outra expressão para consciência da realidade, pés assentes na terra. Mas é mais que isso. É a força que nos permite ter confiança nos nossos esforços e não desistir diante da grandeza da tarefa. É o derradeiro antídoto contra a decadência.
publicado por Miguel Morgado às 11:12 | comentar | partilhar