Os desempregados vão pagar a crise

E duplamente. Por um lado o número de pessoas no desemprego vai continuar a crescer, sendo os números de Janeiro um sinal do que está neste momento a acontecer e que vai muito para além dos encerramentos que aparecem na TV: estamos por exemplo a falar de grandes multinacionais de consumo que recebem e.mails com instruções claras de redução de força de trabalho em 25%. Por outro a rigidez (para baixo) do factor salarial e o crescimento que este teve recentemente sem qualquer suporte em produtividade vai demonstrar-se especialmente cruel. Devido às características da nossa economia, muitas das pessoas que estão neste momento a caminho do desemprego não mais voltarão a estar empregadas no sentido "clássico" do termo e que sempre conheceram, entrando no novo mundo dos contratos de curta duração e de grande rotatividade, nos quais se arrastarão penosamente até atingirem níveis mínimos de reforma.

Adicionalmente, para efeitos de alcance ou reconquista de quotas de mercado, e quando essa decisão for inevitável, a contratação de novos quadros para as empresas significará ir buscá-los a um preço tendencialmente inferior ao dos quadros actuais e ao custo que essa mesma posição teria há algum tempo atrás ainda que ocupada pela mesma pessoa. Isto irá acontecer não só por uma questão de oferta e procura (mais desemprego, mais pessoas disponíveis, menor o preço do trabalho), mas também, e porventura sobretudo, pela insustentabilidade competitiva do nosso nível salarial. E como este é rígido (para baixo), logo quem tem emprego não vai renegociar para baixo (boa parte da culpa aqui vai para os sindicatos e legislação laboral), é quem não tem emprego e vai negociar que terá de arcar com os custos acrescidos dos valores salariais não competitivos dos outros, diminuindo então o seu numa maior proporção.

É bem possível que Portugal sofra da doença dos custos de Baumol. Por exemplo, mesmo com dificuldades de medição de produtividade, alguém encontra justificação para os aumentos dos funcionários públicos neste momento? Seja como for, a crise vai bater forte na classe média e média baixa, e aqueles (muitos) que estão a caminhar para o desemprego irão sofrer como ninguém a dura face do enquadramento socialista e sindical no momento em que mais precisam de factos e menos de intenções.
publicado por Manuel Pinheiro às 14:25 | comentar | partilhar