Não sou Conservador (2-primeira ilustração)

Não disse que o conservador era avesso à mudança no domínio humano. Afirmo, sim, que a concebe de um modo peculiar. Como tal, ele até pode brindar a emergência de alterações, câmbios e novidades. O que permanece sempre imóvel é a sua forma de pensar, o seu quadro mental. O mundo e a realidade pulam e avançam, mas a sua perspectiva permanece sempre inalterada. Agarra-se a “verdades auto-evidentes” e acredita que estas possuem suficiente elasticidade para o manter em sintonia com a realidade. Engana-se. Pior ainda. Erra sem poder inverter as condições que propiciam a emergência do erro.

Não encontro melhor expressão irónica para ilustração do meu conservador do que as palavras iniciais que abrem Orgulho e Preconceito de Jane Austen (assumo que as vossas esposas ou noivas já vos tenham obrigado a ver a série ou o filme):
“It is a truth universally acknowledged, that a single man in possession of a good fortune, must be in want of a wife.
However little known the feelings or views of such a man may be on his first entering a neighbourhood, this truth is so well fixed in the minds of the surrounding families, that he is considered as the rightful property of some one or other of their daughters.”

Repare-se. Neste romance, existe um número apreciável de personagens que se encontram estabilizadas em rotinas de família e sociabilidade. Lady Catherine de Bourgh (imobilismo aristocrático), Charllote Lucas (pragmatismo e falta de ambição) Mr. Collins (vacuidade das convenções sociais). Mas a frase de abertura aplica-se genialmente a Mrs Bennet. E esta personagem interessa-me por um motivo especial: ela incorpora em si um suposto conhecimento gerado num modo de vida que não foi imposto por nenhum intelectual moderno ou político iluminado. Trata-se de uma sabedoria comum de uma sociedade que espontaneamente se desenvolve a partir das suas estruturas nucleares. Não são necessários os “perigosos” racionalistas, os “abjectos” filósofos franceses ou os “maçudos” alemães, para nos depararmos com a fixação de uma verdade universal e imutável sobre o domínio das relações humanas e com a obtenção de conclusões práticas derivadas de forma dedutiva. O que falta dizer sobre a mentalidade de Mrs Bennet e da sua sociedade? «O bem da mulher, obtém-se através de um casamento apropriado à sua condição»

E aí temos Mrs. Bennet completamente obcecada com o casamento das suas filhas, brindando a novidade da chegada de dois cavalheiros. Mas o ponto é este: haverá alguma personagem tão firme, ardente e nervosamente constante no seu propósito ao longo de todo o romance? Mrs. Bennet não muda. Os seus juízos revelam-se despropositados, avalia mal os outros, é ultrapassada pelos acontecimentos (Lydia foge com Wickham, desonrando a família e pondo em perigo o casamento das outras filhas de Mrs Bennet), e a sua perspectiva permanece inalterada. Ela é a ilustração de um sedentarismo conservador a nível da leitura da realidade, com consequências ao nível prático. Fixação da consciência numa “verdade universalmente reconhecida”, num primeiro princípio auto-evidente que serve de regra e medida para todos os actos e relações humanas.

Tal perspectiva pode ser gerada e cultivada por alguns intelectuais. Mas o homem comum, a comunidade familiar, a sociedade, as tradições podem alimentá-la espontaneamente e com consequências desastrosas.
publicado por Joana Alarcão às 17:52 | partilhar