Descoberto

Passa-se algo errado comigo. Desde que li os comentários do Paulo Santos e o post do Nuno Lobo em resposta ao meu. Mas que é isto? Que sensação esquisita aqui. Olho-me no espelho.
Cá está. Está a surgir-me um bigode à Mário Nogueira.
Diabos, o Paulo Santos apanhou-me: o que pretendo com aquele meu post é apenas aumentar a quantidade de mão-de-obra educativa nas escolas. Por que outra razão havia eu de escrever o que escrevi? O corporativismo, sempre o corporativismo.
Eu bem julgava enganar toda a gente fazendo crer que o meu pobre texto dizia apenas umas coisas medianamente sensatas. Mas não - o meu incorrigível corporativismo cegou-me.
Já fui apanhado - nem vale a pena acrescentar mais nada ao que já disse. Para minha indelével vergonha, o meu propósito obscuramente sindicalizante foi trazido à luz.
Não fora assim, e ainda poderia dizer que a analogia feita pelo Paulo entre a dimensão das turmas do ensino privado e a das do público é espúria, que são realidades tão diversas que impossibilitam uma analogia nesses termos - mas não vale a pena, já não engano ninguém.
Mal recomeçava a recuperar a respiração, quando o Nuno Lobo me atira com uma evidence que me deixou smashed. Mas onde raio é que fui buscar a ideia peregrina de que dar uma aula [ainda se pode dizer assim?] a uma turma de 30 pessoas será qualitativamente diferente de o fazer a uma de 15? E que há que pensar ainda em outras variáveis, como as idades, contextos socio-económicos, disciplina em questão, expectativas dos alunos, etc, onde? Tudo pretextos que o meu corporativismo encontrou para defender a proliferação de professores no ensino.
O Luís Lavoura, sempre inteligente, também alcançou uma das minhas teses inconfessáveis: defender turmas "demasiado pequenas". Claro, para mim, a turma ideal deverá ser constituída por um aluno. Com dois professores, propõe o meu bigode.
Se a manifestação pilosa que se me revelou sob o nariz me levasse a ser descarado, até responderia ao Paulo que ele está equivocado ao considerar como "aberração" a redução de horário lectivo com a idade dos docentes e lhe perguntaria se considera que um professor de trinta anos trabalha com 80, 100 ou 120 alunos nas mesmas condições que um de cinquenta e se a qualidade das aulas não se ressentirá desse factor despiciendo. Argumenta o Paulo que essa é uma prerrogativa que "outras profissões não têm". A isso, a minha falta de vergonha corporativa só poderia responder que é natural - precisamente porque se trata de outras profissões.


(A Escola -ou aquilo que ainda passa por Escola - está perdida. Está cercada de todos os lados. Todos. Já ninguém a entende. Aqueles que a deviam defender e melhorar, ajudam a enterrá-la. Mesmo que com boa intenção (como é aqui o caso). O terreno onde se faz o discurso que ainda tenta defendê-la está minado.
Está cercada pela barbárie. Barbárie que se instalou em muitos professores antes de alastrar pelos alunos. A monomania da "avaliação dos professores" assente nas classificações dos alunos é também um sintoma e uma forma de barbárie. Quem defende uma coisa dessas está a milhas do que é ensinar e aprender: a luta tão difícil da emancipação, um combate tão custoso, tão violento. É um combate, não é uma mera transmissão. E um combate é sempre entre dois. A tremenda dificuldade da conversão.)
publicado por Carlos Botelho às 02:59 | comentar | partilhar