Multiplicação do Risco

A forma mais simples de garantir que muitas das nossas escolhas pessoais não têm tradução na nossa situação profissional é garantir que a lei separe as esferas. As tentativas através de leis e regulação de incentivar a natalidade com artigos e mais artigos com influência directa no relacionamento laboral impede esta separação. Ela é certamente utópica, e alguma regulação e criação de direitos (como a licença de parto) é até consensual, se não mesmo unânime, mas tentativas de criar mais direitos específicos para a natalidade acaba por ser não só uma discriminação positiva de legitimidade discutível como, sobretudo, bastante contraproducente.

A título de exemplo, um dos indicadores para dar luz verde a muitos tipos de recrutamento é a continuidade no exercício de funções. Ao alargar os termos da licença de parto para os avós, como, a confiar na comunicação social, sugere o CDS, aquilo que na prática se faz é adicionar uma componente de risco laboral nova a quem é avô. Esta componente de risco tem de ser calculada, e para o fazer é necessário saber se a pessoa tem filhos, se estão casados, calcular a probabilidade de terem filhos e colocar um factor risco. Triste, mas ninguém se deveria importar se para um dado recrutamento alguém com 50 ou 60 anos tem 1, 2 ou 5 filhos, e que idade têm, e quantos filhos tem cada um. Acontece que é precisamente este tipo de leis que transformam opções pessoais em indicadores válidos para escolhas profissionais. Talvez os autores da proposta possam afirmar que têm tudo isto presente e que não se importam de sacrificar estas situações em prol de um bem alegadamente maior, neste caso a natalidade. Que, a confiar na comunicação social, os autores da proposta sejam incapazes de quantificar o impacto exacto na empregabilidade dos avós, ou no número adicional de crianças que nasçam devido a esta medida talvez lance as dúvidas de sempre sobre o amadorismo e voluntarismo com que este tipo de questões são normalmente tratadas nos partidos.

Numa economia em que a empregabilidade dos mais velhos tem as dificuldades conhecidas, em que a saúde dos mesmos lhes rouba mais e mais tempo e qualidade de vida e trabalho, em que é cada vez mais difícil manterem-se tecnologicamente actualizados, em que o diferencial de produtividade em relação aos mais novos cresce, talvez não fosse boa ideia adicionar componentes de risco a quem já tem bem mais risco do que pode suportar.
publicado por Manuel Pinheiro às 16:35 | partilhar