Adaptações ao nosso tempo

Hoje, não é difícil depararmo-nos com barbaridades (sim, barbaridade é o termo) como as que o Fernando descreve aqui, mas também me parece que uma “adaptação ao nosso tempo” não deve ser recusada enquanto tal. Estou a pensar em peças. Se considerarmos que um texto é “intemporal” (seja lá o que isso for), estaremos perante duas vias possivelmente armadilhadas.
Por um lado, sendo “intemporal”, não há nenhuma necessidade de o embrulhar numa encenação e/ou guarda-roupa familiares a olhos contemporâneos. Tudo se passa como se aquele texto valesse por si e tivesse uma força que vem do passado, intacta, e nos atinge em cheio tal como atingia as audiências da sua estreia – fosse ela em Atenas ou no Globe.
Por outro lado, é precisamente por ser um texto “intemporal”, precisamente por aquelas palavras, por aquela voz ser ainda capaz de nos falar, que deve ser trazido até nós e apresentado de uma maneira que não nos distancie dele – deve ser-nos dado a conhecer num aspecto familiar ao público, para que este não feche de imediato os olhos e se recuse a ouvir logo às primeiras palavras.

Fedra de Seneca/Hipólito de Eurípedes, segundo Stefania Cenean, 1994

Nestas “adaptações”, mais ou menos ousadas, há umas que são autênticos disparates que alienam os textos. Mas há outras que resultam. Neste momento recordo-me duma encenação “conjunta” do Hipólito de Eurípedes e da Fedra de Séneca que talvez enfurecesse os so called puristas. Afrodite, terrível, é uma mulher madura em lingerie e o Coro é composto por mulheres que exibem os seus seios. Não se dirá assim melhor a natureza da deusa e o papel do Coro das mulheres de Trezena? Melhor do que se Afrodite nos aparecesse de chiton. Mesmo que fosse um chiton revelador.
Gosto de pensar numa encenação como uma tradução. Aquele texto está como que a ser traduzido num palco para nós. Pensemos na tradução de um poema: qual é a “melhor”? Aquela que, arqueologicamente, escava os arcaísmos e no-los mostra em palavras literais, mas petrificadas? Ou a tradução que consegue re-criar o poema, que repete em nós o efeito que ele teve nos outros? Aquela tradução que não parece tradução – mas que nos aparece como um original. (O "Torso de Apolo" de Rilke e o de Manuel Bandeira, ou o mesmo (o mesmo?) soneto em Shakespeare e em Vasco Graça Moura) Qual é, na verdade, mais “fiel” ao original?

Euménides de Ésquilo, segundo Peter Hall, 1981
publicado por Carlos Botelho às 22:48 | comentar | partilhar