Maravilhas


A nossa querida Lisboa, capital mundial da cultura e de outras coisas edificantes, será o local escolhido para a cerimónia de declaração das "Sete Novas Maravilhas do Mundo", a realizar no próximo dia 7 de Julho (07/07/07). A iniciativa de colocar à consideração dos internautas a escolha das maiores obras arquitectónicas do espírito humano poderia não passar de mais um exercício essencialmente fútil e infantil, que reflecte a vontade (ou mania) contemporânea de pronunciar veredictos (democraticamente, bem se vê). A votação para o "Maior Português", e o debate maioritariamente ridículo que suscitou, ilustram bem a patologia.

Todavia, a reacção virulenta do Egipto à simples ideia de fazer acompanhar as Pirâmides - a única maravilha sobrevivente das lendárias "Sete Maravilhas do Mundo" - de outros monumentos, para além de atestar o caso agudo de esquizofrenia de que padecem algumas sociedades do Médio Oriente, recordou-nos que os veredictos nunca podem ser politicamente inocentes. O caso da inclusão de Salazar no pódio dos "Grandes Portugueses" serve, uma vez mais, como exemplo. A indústria do entretenimento que se dedica a propôr estes rankings e hierarquias mais ou menos arbitrários gosta e precisa de salientar a "importância" do "envolvimento cívico" ou do "debate de ideias". Mas tem dificuldade em lidar com a reacção daqueles que estupidamente dão mais importância ao assunto do que este merece. O que servia sobretudo para elevar os "valores da Humanidade", para promover a "paz, a tolerância e o amor em toda a Terra", afinal desecandeou uma resposta rude, chauvinista e intolerante. E nós, infelizes espectadores, estamos inconsoláveis perante tamanho delírio.
publicado por Miguel Morgado às 19:46 | comentar | partilhar