O espírito das tribos blogosféricas

Seguir o logos sob o comando de Sócrates pode obrigar-nos a entrar num terreno pouco familiar; e fazê-lo requer coragem, pois não nos livramos da sujeição ao ridículo perante os outros. O filósofo precisa de coragem para enfrentar o ridículo daqueles que defendem o que é meramente convencional. Pois para se ganhar de acordo com o modo próprio dos homens não devemos fazer batota e evitar o argumento. Os que recorrem à batota e se limitam a afirmar são uma espécie de impostores que acabam por não vencer verdadeiramente. Apesar de Sócrates parecer estar sempre a comandar os diálogos platónicos, ele frequentemente relembra os seus interlocutores que é o logos que está no comando e não ele. O nosso dever é o de seguir o logos, o argumento, e não o de tentar dobrá-lo para servir os nossos interesses. A maioria das pessoas dobram o argumento para proteger os seus interesses, como fazem aqueles que Aristóteles acusou de ajuizar mal quando falam de justiça. Quando deixamos fugir o argumento para nos mantermos em terreno familiar estamos a deixar fugir o “quê” para proteger o “quem”. A filosofia, na medida em que busca o “quê” das coisas, abstrai-se do “quem”, isto é, abstrai-se dos particulares da vida humana. Todos sabemos que Sócrates, no Fédon, definiu a filosofia como o aprender a morrer: aprender a seguir o logos ou o “quê” mediante a abstracção dos factos da nossa vida particular. A atenção a esses factos tem o nome de realismo, designadamente o realismo feminino, como é evidenciado pela anedota ele/ela. Ele: “O problema com as mulheres é que elas interpretam sempre as coisas de modo pessoal.” Ela: “Não concordo nada com isso, no meu caso não é nada assim.”

Harvey C. Mansfield, Manliness, Yale University Press, 2006, pp. 222-223

Eu lembrei-me imediatamente da anedota ele/ela quando topei com as reacções que resultaram deste meu post sobre a desproporção e desonestidade da crítica política que é feita sob a capa do humor. Foi só depois de reler a passagem deste professor de filosofia politica em Harvard que pude concluir que a minha associação até estaria a ser benevolente. As reacções ao meu post nem sequer podem ser resumidas como qualquer tentativa de dobrar o argumento para proteger os interesses particulares dos seus autores, pela simples razão que não há nelas qualquer argumento, mas apenas a manifestação do espírito próprio das tribos (muito ao jeito dos cães que lambem as mãos do dono mesmo quando ele os trata mal e que ladram aos estranhos mesmo quando eles os tratam bem).

No 31 da Armada ilustra-se a citação do meu post com uma boneca insuflável, como se a explicação para o meu argumento tivesse necessariamente de radicar no “quem” que diz e não no “quê” que é dito. Como a permeabilidade à estupidez é um traço comum à maioria das pessoas, os comentadores que se seguiram não souberam arrepiar caminho. Um chama-me “Lobo Mau socialista”; outro acha que “este senhor Lobo deve ser um infeliz” e aconselha-me a leitura do Elogio da Loucura (sim, porque a estupidez não abdica de querer parecer inteligente); outra aconselha-me a “arranjar vida própria”. O culminar desta incapacidade gritante de compreender um argumento mediante a abstracção dos interesses particulares é oferecida pelo próprio autor do post do 31 da Armada, que não resiste em se despedir sem antes notar que eu estaria certamente a pensar nele quando escrevi o meu post. Diz ele: “Nunca pensei que no 31 se fizesse ‘transfiguração indevida da realidade’. Sinto-me muito mais importante.” Para além da vulgaridade da boneca insuflável e da importância que atribui à sua própria importância, o autor nem uma achega faz ao meu argumento, nada, zero.

Depois, o delírio de quem decide disparar para todos os lados. Ora são os “blogues próximo do PSD”, ora é a “raiva”, ora são as “mentes menos livres”. O post não chega a ter 3 linhas completas mas dificilmente alguém conseguiria delirar tanto em tão pouco espaço. Como eu raramente escrevo sobre política partidária, não faz qualquer sentido assumir que eu sou do PSD ou do CDS ou de outro partido ou de nenhum; menos sentido ainda faz assumir que eu estou mais inclinado para esta ou aquela facção dentro de um partido. Também não faz qualquer sentido a ideia de que a raiva tomou posse do meu pensamento, e isto pela razão muito simples de que eu não consulto o 31 da Armada nem conheço de cor o nome de nenhuma das pessoas que nele escrevem. Finalmente, a história das “mentes menos livres” não só não faz sentido, como chega até a ser contraditória (lá está o resultado de não se seguir o logos). Sendo o pretexto do meu argumento crítico um post do 31 da Armada, sugerido por um camarada do Cachimbo, pergunto como é que a primeira bola a sair do saco é a da ausência de liberdade em algumas mentes do Cachimbo? Pelo contrário, o facto de duas pessoas no mesmo blogue transparecerem ter uma interpretação diferente de um mesmo fenómeno não denuncia precisamente a existência de mentes livres no Cachimbo? Muito sinceramente, a bondade obriga-me a pressupor que o autor do post se precipitou e não pensou sequer no que estava a escrever. De qualquer modo, mais uma vez, da substância do meu post, do conflito que tento denunciar entre um humor desproporcionado e desonesto e a vida politica responsável, nada, zero.

Aquilo que vai passando na blogosfera, que não passa pela tentativa de avançar argumentos minimamente inteligentes que possibilitem uma melhor compreensão dos “quês” dos assuntos políticos, que se restringe aos “quem”, é apenas mais um ramo da política tal como ela existe entre nós: fulanizada, inculta, estupidificante. E isto é que é pena, pois a blogosfera até poderia ser um espaço para o debate público decente.
publicado por Nuno Lobo às 13:50 | comentar | partilhar