Os pobres

Gonçalo, tens razão: a pobreza, que entrou "lá em casa" pela mão do Prós e Contras de anteontem, não deveria ser-nos indiferente. Curiosamente, dá-se uma volta pela blogosfera, sempre tão atenta e opinativa, e nada se diz sobre isto*. O silêncio, porém, não se deve apenas à superficialidade do meio, mas à maior invisibilidade do tema. Ou, melhor, a uma mudança na sua aparência. O pobre que morre de fome, o pobre bíblico, o Lázaro da parábola já quase não existe na sociedade portuguesa - felizmente. Lembro-me de ouvir contar que os meus bisavós, proprietários de uma casa agrícola que podia considerra-se rica no Sotavento algarvio, abriam todos os sábados de manhã o celeiro da quinta aos pobres das redondezas, sobretudo os pescadores de Montegordo, os mais miseráveis dos miseráveis. Essa pobreza está hoje à beira da extinção, graças a Deus, ao turismo e à assistência social (e essa riqueza também, diga-se de passagem). Ainda existem bolsas de pobreza nos bairros de lata de Lisboa, nas "ilhas" do Porto, nas comunidades de pescadores (sempre os pescadores...) da Madeira e dos Açores - como Rabo de Peixe, estatisticamente a freguesia mais carenciada do país - mas o perfil do pobre, perdoe-se-me o sociologismo, mudou.
Hoje, os indigentes nos países desenvolvidos, entre os quais Portugal se conta, não são na maioria pessoas que tenham nascido na pobreza, mas pessoas que caíram na pobreza: toxicodependentes, mães solteiras, famílias monoparentais, desempregados de longa duração, incluindo os imigrantes, velhos e deficientes abandonados. São o fruto amargo da broken society, uma sociedade que aumentou o nível de vida para todos, mas criou também novos excluídos pela erosão dos laços sociais.
Dei-me conta disso, há muitos anos, quando comecei a fazer voluntariado na Musgueira, um bairro da capital entretanto demolido. As condições eram as típicas de qualquer aglomerado de barracas: caixas de chapa, todos clandestinas, minúsculas, apertadas, quase sem divisões, sem privacidade (dentro e fora), sem electricidade, a não ser através de uma ligação directa aos postes da EDP, e sem água canalizada, o que provocava o cheiro que se imagina, ou talvez não, porque nunca se imagina antes de lá entar. Eram raras, raríssimas, as que tinham casa-de-banho. Eram ainda mais raras as que não tinham uma antena parabólica. Aquelas pessoas, que viviam pior do que muitos animais, tinham falta de tudo, mas não de uma televisão. Preferiam a MTV à água canalizada. Não as critico. Foi uma grande lição para mim, aos 15 ou 16 anos, ver que a pobreza não estava tanto na falta de bens, mas na falta de consciência da própria dignidade.
O que significa que a pobreza já não é um problema assistencial, mas um problema cultural e social no sentido mais amplo. O combate à pobreza não passa só pela acção distributiva do Estado, das Misericórdias ou de instituções de solidariedade privada como o muito louvável Banco Alimentar. Isso é ainda necessário nos casos mais graves, sem dúvida. Mas a urgência principal talvez esteja em políticas que reforcem a liberdade e a responsabilidade dos pais, das familias, das escolas, das associações voluntárias, das comunidades intermédias em que Burke e Tocqueville viam palpitar uma sociedade de homens capazes de tomar o próprio destino nas mãos.
Combater a pobreza é lutar pela liberdade e pela qualidade de ensino. Aquilo de que precisa uma criança da Musgueira não é de ir obrigatoriamente para a escola mais próxima, onde todos os colegas têm as mesmas expectativas, ou seja nenhumas, e professores muito progressistas valorizam os seus "saberes" alternativos, sem lhe ensinarem o Português e a Matemática indispensáveis no mercado de trabalho. Português e Matemática que os filhos da classe média aprendem em melhores escolas, públicas ou privadas, porque os pais fazem um enorme esforço financeiro ou sabem preencher papéis com a morada certa.
Combater a pobreza é não facilitar a ruptura familiar através de leis bem intencionadas, mas perigosas, como o "divórcio na hora". Para além de todas as consequências que o divórcio tem na vida de cada um, e que nunca são agradáveis, o fim do casamento é uma das causas mais seguras de pobreza para a mulher, que fica geralmente com os filhos a cargo sem ter o mesmo apoio económico do marido.
Combater a pobreza é passar claramente a mensagem de que a droga é um mal porque destrói um de nós, e não apenas uma questão sanitária que só diz respeito ao "direito ao corpo" do próprio. Podemos diminuir a incidência da SIDA distribuindo seringas nas prisões, mas não será isso, bem pelo contrário, o que vai diminuir o consumo nas ruas.
Combater a pobreza é incentivar as famílias com parentes mais velhos a cuidar deles em casa, deduzindo nos impostos o que gastariam com eles num asilo ou nos muitos cuidados de saúde que teriam de garantir se eles vivessem sós.
Os exemplos poderiam multiplicar-se e tu conheces por certo muitos outros. A pobreza tem muitos rostos, mas, quando a olhamos de frente, é sempre um reflexo do que somos e do que queremos ser.
*Adenda: Informam-me, entretanto, que o Blasfémias tem dois posts sobre o assunto. Fui ver e tem mesmo, mas são um bocadinho ao lado. A excepção confirma a regra.
publicado por Pedro Picoito às 14:16 | partilhar