RE: Campanha Nacional contra o Analfabetismo

Comecemos pela esquerda vs. direita. Existe este preconceito estúpido em Portugal de que a direita não tem "ideias", tem "interesses". Sem desprimor, claro. E muita gente à esquerda reencena constantemente este triste e ignorante enredo. Sinceramente, Luís Rainha, o seu post pareceu-me mais uma destas reencenações. À esquerda moram as "ideias": no fundo foi esse o mote de Jorge Sampaio contra Cavaco Silva em 1995/6, e de Mário Soares contra o mesmo Cavaco em 2005/6.
E a esquerda em Portugal, principalmente a esquerda "moderada", deveria ter alguma memória. O que resta da esquerda em Portugal, a esquerda no PS, deve-se à sua ausência de "ideias". As suas "ideias" foram todas para o "caixote do lixo da história" - uma expressão da esquerda - assim que perceberam que com elas não havia poder. O poder, pois é. Então, só restava uma alternativa: a apropriação das ideias da direita ou do centro-direita. Aconteceu aqui e no resto da Europa. É verdade que o PS sempre foi partidário da adesão à CEE ou UE, a grande transformação da sociedade portuguesa dos anos 80. Mas na campanha de Guterres de 95 - sim, 95 - ainda ouvi vários altos dirigentes do PS contestarem a privatização das rádios (!), a multiplicação da propriedade do automóvel na classe média portuguesa, e por aí fora.
Guterres, Ferro Rodrigues, Sócrates: "ideias" não sei se lhes ouvi alguma. De Guterres ouvi muita patranha e delírios sentimentais que o País ainda hoje está a pagar. Diz-se que Manuela Ferreira Leite não passa de um Sócrates de saias, pois nada tem a oferecer de diferente. Não sei se isso é verdade. Mas sei que a ordem aqui está invertida. Quanto muito, Sócrates copiou Manuela Ferreira Leite e não o contrário. Ou já se esqueceram que quando Manuela Ferreira Leite era Ministra das Finanças, o PS de Ferro (e de Sócrates) acusava-a de estar obcecada com a disciplina fiscal em subserviência ao mando europeu? O PS tudo fez para ignorar ou para esconder de todos que Guterres não deixou ao País um défice apenas, mas dois: o do orçamento do Estado e o da Balança de Transacções Correntes. A MFL de 2003/2004 é sobretudo a encarnação da resposta necessária ao facto Portugal estar a correr vertiginosamente para um endividamento externo catastrófico. Mas não quero desviar-me do assunto em mãos.
O PS e o PSD movem-se ambos primordialmente pelo poder. De vez em quando lá aparece uma liderança que pressente correctamente que há uma escolha estratégica a fazer e acumula o poder com as "ideias". Aconteceu com Mário Soares e a ameaça comunista e a escolha europeia; aconteceu com Sá Carneiro e a Constituição; aconteceu com Cavaco Silva e a modernização económica do País. Mas, neste País, é raro acontecer. Esta realidade não se disfarça com citações ignorantes de Voltaire ou com discursos ridículos sobre a "paixão" pela educação.
O problema hoje é que este vazio "programático" ou "intelectual" das gentes que nos governam revela a sua nocividade. Daí que se exija ao maior partido da oposição que não repita a dose. Mas não é possível separar as "pessoas" das "ideias". Isso seria a maior das abstracções. E que as "ideias" têm de ser pensadas, articuladas e traduzidas em opções políticas por pessoas com determinadas qualidades ou virtudes. Neste momento, presumo que para o PSD as qualidades ou as virtudes sejam, no estado actual da sua crise, tão importantes como as ideias, ou até prioritárias sobre as ideias. E no meu post que citou no seu blogue, ao contrário do que sugeriu - "atirou ao lado" -, é a este ponto que me refiro, não ao poder.
Quer isto dizer que considero que MFL não tem de trazer consigo outras opções políticas além das que foi forçada a adoptar em 2003 devido à irresponsabilidade do PS? Não, não quer dizer nada disso. Mas cada coisa a seu tempo. Para mim, o que é genuinamente estranho é que Portugal tem tido desde 1995 Primeiros-Ministros e líderes da oposição de gargalhada, e é MFL que é criticada por não estar à altura da missão. Pode ser por falta de "ideias", mas não consigo sacudir esta estranheza. Mas não é por me "armar em vítima", meu caro. Nem por gostar de "cuspidelas".
publicado por Miguel Morgado às 11:55 | partilhar