Gaza e os tréns de cozinha

É preciso uma certa dose de bondade para achar que facas de cozinha e canivetes de bolso constituem armas per si e que a sua utilização para outros fins, nomeadamente de ataque a outros, é a prova de que a violência era premeditada. Só faltava mostrarem cintos apreendidos, que poderiam ter servido para estrangular os soldados, ou sapatos de salto afiado, que com pontaria cegariam qualquer um.

Não está em causa a reacção violenta dos tripulantes do navio e a necessidade, então, de defesa das tropas desembarcadas. Está em causa o que vem antes: a abordagem absolutamente estúpida dos israelitas, um desembarque de comandos às duas da manhã num navio o de gente cuja sanidade não será seguramente elevada e cujo perigo era, se não baixo, de controle relativamente fácil. Como disse uma deputada trabalhista, You simply do not send commandos into a PR situation. Ler também isto.

Claro que a estupidez daquela abordagem deriva de algo mais profundo e essencial, a forma como Israel lida com tudo o que entende ser uma ameaça à sua segurança e à sua sobrevivência. Criticar um acto estúpido, gravíssimo, consequente dos sentimentos de impunidade e prepotência próprios de um estado cada vez mais pária não implica, por um segundo que seja, a adesão ao discurso ou aos métodos do "outro lado". A clubização extrema do tema é realmente fácil, mas ainda é uma escolha.
publicado por Tiago Mendes às 23:07 | partilhar