Livros lidos até ao fim

 

 

Na Ofensa de Ricardo Menéndez Salmón, o ofendido é Kurt Cruwell. Um alfaiate que vive na pacata cidade de Bielefeld. Um jovem alemão que perde a sensibilidade quando se vê parte de uma guerra que o faz desaparecer. Primeiro perde a sensibilidade, depois a dignidade física e por fim a âncora espiritual.  


Licenciado em Filosofia, o autor usa como adjectivos referências aos grandes clássicos. Compara a língua alemã ao gemido de um homem numa caverna, ou o enamoramento à perturbação do matemático face às aporias de Zenão.


O livro abre com uma citação de Harold Brodkey “A morte é a condição real que ofende a fantasia” , avança com descrições de  violência, brutalidade, desfiles e matanças “ que comprovam que a vida se parece mais com um quadro de Bosch do que com um bucólico almoço na relva”.


Tudo para nos contar que “o homem convive com o seu corpo, mas não o conhece”. Essa realidade permite entender “a essência última da dor, que não é mais do que a ruptura que provoca a indiferença do corpo face a nós próprios. (…) que permite conservar o nome, a dignidade, quando o corpo, na doença, na mutilação ou na velhice, já não nos pertence”.


A Ofensa não faz parte dos livros que se lêem como quem vê um filme. Um livro pequeno em tamanho, com um fim aberto e enigmático que convida o leitor a criar a sua interpretação da história.

publicado por Joana Alarcão às 13:06 | comentar | partilhar