De todas as lições, uma maior que as outras

Não há um direito à felicidade. Ponto final. Um sense of entitlement que abunda na Europa (é injusto limitá-lo a Portugal) onde pais, professores, Estado, Segurança Social, Entidades Empregadoras, bancos, "União Europeia" devem assegurar que uma pessoa seja feliz. Que se diverte na escola, que pode ficar desempregado e recusar empregos (até ter um emprego "digno"), que deve ser financiada ad eternum pelos pais para ter uma "juventude completa", que o(a) companheiro(a) se deve ajustar ás suas expectativas de vida. E por aí fora.

Visto daqui, do Extremo Oriente, este direito adquirido parece surreal. Aqui dá-se no duro. Primeiro na escola e nos centros de explicações onde as crianças empilham conhecimentos até às dez da noite. Depois no trabalho onde é normal só sair depois do chefe, trabalhar seis dias por semana e tirar uns cinco ou seis dias de férias por ano. Aos adultos cabe 1. trazer dinheiro para casa (e não gastá-lo em coisas pessoais), 2. pagar fortunas para os filhos terem a melhor educação possível, exigindo-lhes notas altas, 3. tomar conta dos pais (velhos). Às empresas cabe reter e treinar trabalhadores, exigindo-lhes basicamente toda a sua vida activa. Ao Estado cabe a obrigação de identificar e investir em "motores de crescimento" da economia, envolvendo depois as grandes empresas e universidades. A segurança social é quase inexistente. As mulheres amoxam em casa (está a mudar, ainda bem), asseguram que as crianças têm maneiras e vêm os maridos ao Domingo.

Há aqui um claríssimo sentimento de que é preciso lutar, sofrer para se conseguir as coisas mais importantes. E que queixar-se ou dar a parte fraca não adianta só prejudica. A felicidade, em suma, conquista-se.

Eu não estou a dizer que esta maneira de viver é melhor que a nossa. Mas é seguramente mais sustentável. E uma lição para nós porque esta gente tem as mesmas pretensões.

publicado por Francisco Van Zeller às 15:00 | comentar | partilhar