No debate Passos-Louçã

Louçã é um homem evidentemente inteligente. É um homem bem versado em matérias económicas. Mas escapa-lhe, com frequência, as contradições gritantes que não só proclama como repete. Hoje, no debate com Passos, querendo acusar o seu interlocutor de "moralizar" os desempregados ou os que recebem prestações sociais, Louçã nem deu conta de que não estava a fazer outra coisa senão a moralizar. Moralizou, moralizou, moralizou. O impulso é tão forte que para ele não era suficiente acusar o outro de "moralizar". Não, Louçã teve, e tem, de moralizar a crítica a quem moraliza. Ele é o mais severo moralista da política portuguesa, e não o sabe.

Quando Passos sugeriu o radicalismo político de Louçã, este devolveu-lhe o epíteto. Tudo bem, dir-se-á. Igualdade no tratamento. Mas é preciso tomar em consideração um pequeno pormenor: as propostas de Passos no plano das privatizações, ou do trabalho comunitário como contrapartida das prestações sociais, estão muito próximas do centro políitico no Ocidente democrático - Europa Ocidental e Oriental, e América do Norte. Infelizmente para ele, e não há truques de retórica que o disfarcem, o Bloco de Esquerda não está. Sabendo que o radicalismo político é sempre uma noção relativa a um centro "moderado", o centro político de referência é aquele que é dado pela experiência das democracias contemporâneas. Louçã e o Bloco de Esquerda não gostam delas, mas o problemas é deles. Não é dos outros.

 

publicado por Miguel Morgado às 21:52 | comentar | partilhar