O bloqueio do Bloco revisitado

 

 

Fernando Rosas escreve hoje no Público um artigo com o título spinolista "O Bloco e o futuro" para justificar, no fundo, os erros de liderança que terão provocado o "tsunami" (sic) do partido nas últimas eleições e concluir previsivelmente que o dito tsunami não passou, afinal, de uma ondinha passageira. Por ironia, o artigo ilustra bem as razões do bloqueio do Bloco, que se crê investido de uma missão providencial ("o BE teve e terá uma intervenção decisiva para introduzir alterações históricas no regime dos direitos de cidadania: a legalização do aborto e dos casamentos gay, a criminalização da violência doméstica e o mais que está para vir"; "trata-se de criar uma Esquerda Grande, combativa, moderna, plural, que possa suportar social, política e ideologicamente uma mudança histórica: constituir-se como alternativa de governo"; etc.), mas não convence os eleitores de tal evidência quando, no silêncio das urnas, o apelo do voto útil fala mais alto do que a retórica da Esquerda Grande, com maiúscula e tudo .

Note-se que os excertos citados incluem todos os tópicos da visão da história do progressismo, em particular a identificação entre o progresso e os triunfos conjunturais do partido-vanguarda-do-povo, triunfos que, apesar de conjunturais como tudo em política, anunciam sempre os amanhãs que cantam ("e o mais que está para vir"). 

Face às derrotas do Bloco no choque com o real, esta narrativa profética tem dois objectivos.

Em primeiro lugar, mobiliza os fiéis em crise de fé ou em risco de apostasia, prometendo um futuro radioso depois das agruras momentâneas do presente. O final do artigo é um clássico de qualquer apocalipse: "Esta luta política por mudanças de fundo é um combate prolongado. Onde naturalmente há avanços e recuos, há vitórias e derrotas. Tenho para mim que o BE que ajudei a fundar está no caminho certo e deve ter o sangue-frio e a lucidez de não se desviar dele. Se assim for, seguramente o Bloco é um partido com futuro." Ou seja, não duvideis e, no fim dos tempos, o bem triunfará e gozaremos da eterna beatitude no paraíso bloquista.

Em segundo lugar, reforça-se a coesão interna contra os inimigos. Quem critica ou combate o BE está necessariamente contra o progresso - e necessariamente pelos piores motivos. O BE, paladino do futuro, é "um perigo real para essa gente" (sic). Mais uma vez, esta pequenina expressão diz muito sobre o radicalismo do Bloco, assente na despersonalização do adversário ("essa gente") e na heroicização do partido ("um perigo" que "essa gente" tentará aniquilar, se não cerrarmos fileiras à volta do chefe). Diga-se, de passagem que esta lógica de cerco explica a recente purga de Rui Tavares, vítima do que ele própriondesignou por "caça ao independente". Quanto mais acossada a seita, menor a tolerância à diferença. Ou ao "desvio do caminho certo", para usar outra expressão reveladora de Rosas.

Esta visão do mundo sectária impede o Bloco de atingir um dos fins autopropostos por Rosas: "contribuir para que a Esquerda Grande, popular, plural e socialista, unida em torno de uma plataforma de luta comum, chegue ao poder." O BE tentou fazê-lo apoiando à candidatura de Manuel Alegre nas últimas presidenciais, mas falhou porque o eleitorado moderado desconfia do Bloco. Com toda a razão, o centro-esquerda compreende que a bota das boas intenções não bate com a perdigota dos princípios. E sem este eleitorado nenhuma alternativa de esquerda, Grande ou Pequena, chegará ao poder.

Acresce que o eleitorado do Bloco, ao contrário do que se passa com o PCP, é muito menos ideológico do que os seus dirigentes, filhos de uma cultura política revolucionária, marcada pelo sectarismo e avessa ao compromisso. De todos os grupúsculos que formaram o BE, o único que nasceu de facto depois do 25 de Abril, interiorizando as regras da democracia, foi o Política XXI. Não por acaso, são também os seus membros mais mediáticos (Miguel Portas, Daniel Oliveira, Rui Tavares) quem tem pedido uma renovação do Bloco. O desfasamento entre os ultras da ex-UDP ou do ex-PSR e o volátil eleitorado bloquista agudizou-se no último ano. Resta saber se o Bloco vai capitalizar com a crise, o que soa a nefando capitalismo eleitoral, ou se vai regressar à luta de facções que, graças a Deus e à CIA, impediu sempre  a extrema-esquerda de "chegar ao poder". Pensando melhor, o futuro proposto por Spínola também não foi grande coisa. Ou Grande Coisa.    

publicado por Pedro Picoito às 16:59 | comentar | partilhar