Vou a Jericó deitar bichas de rabiar

Tenho um certo parti-pris contra questionários sobre livros. Não porque me pareçam ilegítimos, ou intrusivos, ou qualquer outra coisa começada por i, mas porque resumir as leituras de uma vida a meia dúzia de linhas é fatalmente diletante. E não gosto de tratar as leituras de uma vida com ligeireza: há livros que me mudaram mais do que muita gente que encontro por aí. Só que o camarada Martins enviou-me uma corrente que tem circulado na bloga, com equívoco sucesso, e receio que me lance uma maldição galega se não responder. Aqui vai, pois.

 

1. Sim, há livros que leria e releria muitas vezes. Aliás, por gosto, por dever de ofício ou por mera necessidade de pensar, releio mais do que leio. Poesia, antes de mais: Sophia, Ruy Belo, T. S. Eliot, Yeats. Os clássicos da arte: Tocqueville, O Antigo Regime e a Revolução e Da Democracia na América; Aron, L`Opium des Intellectuels (o meu penúltimo post foi-lhe gamado); Furet, Pensar a Revolução Francesa (insultuosamente brilhante); Paul Veyne, Acreditavam os Gregos nos Seus Mitos? (talvez o melhor ensaio de história que já li). Para a tese, a Identificação de um País do Mattoso e Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico do Orlando Ribeiro. E volto sempre à Ortodoxia do Chesterton. 

 

2. Como leio devagar, é raro abandonar definitivamente um livro, mas aconteceu com a História do Cerco de Lisboa do Saramago. Soporífero.

 

3. Um livro para o resto da vida? As Histórias de Heródoto. O princípio de tudo.

 

4. Um livro que gostaria de ler e nunca li? Antígonas, do Steiner.

 

5. A cena final que nunca consegui esquecer está n`O Homem que era Quinta-feira do Chesterton (não é a que serve de ilustração ao post, mas sempre tive um fraquinho por ruivas e metafísica).

 

6. Em criança lia o Astérix e os Cinco, como toda a gente, e tudo o que apanhava sobre história. Uma vez, atirei-me à biografia de São Tomás de Aquino do João Ameal, rapinada da biblioteca familiar. Não passei da primeira página, graças a Deus.  

 

7. A coisa mais chata que li foi a Crónica do Imperador Clarimundo do João de Barros. Por puro interesse arqueológico.

 

8. Ah, a lista, a lista... O Homem que Era Quinta-Feira, Chesterton. Fahrenheit 451, Bradbury. 1984, Orwell. Admirável Mundo Novo, Huxley. As Cidades Invisíveis, Calvino. Danúbio, Magris. As Ilhas Desconhecidas, Raul Brandão. Sobre as Falésias de Mármore, Junger. A Condição Humana, Malraux. O Leopardo, Lampedusa. Lavoura Arcaica, Raduan Nasser. Aquele Grande Rio Eufrates, Ruy Belo. Presenças Reais, Steiner. Etc.

 

9. Leio vários ao mesmo tempo, também como toda a gente. Na secretária tenho A Originalidade da Expansão Portuguesa, uma das obras mais subestimadas do grande Orlando Ribeiro. Folheio no Metro (ainda sem entusiasmo, confesso) Poesia, Saudade da Prosa, a antologia pessoal de Manuel António Pina, que quis conhecer por causa do Prémio Camões - contrariando a arguta regra de nunca ler um autor por causa de um prémio.  E, à cabeceira, passo os olhos pelos guias do próximo Mundial da Rugby World, excelente jornalismo com o mínimo de peneiras.

 

10. Passo isto ao Filipe e ao Vasco, a ver se escrevem. 

publicado por Pedro Picoito às 17:46 | partilhar