(re)Pensar a avaliação docente e o acesso ao ensino superior

 

A notícia de que as notas dos alunos são piores nos exames nacionais do que na escola deveria, no mínimo, fazer-nos reflectir sobre um conjunto de aspectos do nosso sistema educativo, visto que esta comparação entre notas serve de instrumento de controlo da qualidade do sistema. E, como parece evidente, uma tão grande diferença de resultados aponta para diferenças de critérios de exigência nas escolas e nos exames nacionais, i.e. um desequilíbrio no sistema. Duas reflexões.

 

I. Num momento em que se está a redesenhar o modelo de avaliação dos professores, há que questionar até que ponto este não seria uma variável interessante a ter em conta. Há várias formas de avaliar a qualidade do trabalho de um professor, sendo que nem tudo é objectivável e mensurável, mas dificilmente se pode passar por cima do que é, tal como os resultados dos alunos. A observação dos resultados dos alunos, os valores absolutos mas sobretudo os valores relativos (i.e. se melhoraram ou pioraram o seu desempenho com o professor X), é uma forma possível de o fazer – e, na minha opinião, também uma forma justa, que acaba de vez com a confusão entre os professores que são melhores e os professores que têm os melhores alunos. Uma outra forma passa por verificar se os critérios de avaliação do professor estão alinhados com os standards nacionais, que é onde entraria a análise da diferença entre as notas na escola e as notas nos exames, sendo quanto mais baixa a diferença melhor o desempenho do professor.

Se não for possível inserir estas duas variáveis no modelo de avaliação docente, não seria difícil introduzir, pelo menos, a comparação das notas escola/exames com uma variável flexível, que ultrapassando um certo valor obrigaria a uma justificação escrita e um eventual reflexo negativo na avaliação, caso a justificação não fosse aceite pela entidade avaliadora.

 

II. Uma outra questão sobre a qual poderá ser interessante reflectir é acerca da (in)justiça de termos um acesso ao ensino superior baseado em classificações finais (talvez por isso este modelo é cada vez mais uma raridade nos países com sistemas educativos de referência). Estas classificações dependem em grande parte das notas nas escolas e, como é sabido, nem todas as escolas adoptam os mesmos critérios de exigência. Ou seja, entrarão no mesmo curso, numa mesma universidade, alunos que foram escolhidos a partir graus de exigência diferentes, saindo os alunos cujos professores inflacionam as notas na escola favorecidos em relação aos que foram avaliados de acordo com os critérios oficiais. Se isto é manifestamente injusto, porque não acabar com este modelo de acesso ao ensino superior?

Um modelo possível, e muito mais justo, seria o de abrir as portas das universidades a todos os alunos que completassem o 12º ano, permitindo às universidades escolher os alunos na passagem do 1º para o 2º ano de curso. Deste modo, qualquer aluno que frequentasse o 2º ano de um curso X na Universidade Z teria sido escolhido do mesmo modo. Em diferentes universidades, diferentes graus de exigência e, desde que as regras do jogo fossem explícitas para todos desde o início (por exemplo, uma universidade podia apenas admitir no 2º ano os 20% melhores do 1º ano), todos os alunos seriam avaliados e escolhidos a partir dos mesmos critérios.

publicado por Alexandre Homem Cristo às 15:30 | partilhar