Crónicas do Planeta Oval

Parem as máquinas. Contra todas as expectativas, a Austrália venceu anteontem o torneio das Três Nações de rugby, batendo a Nova Zelândia por 20-25 no jogo decisivo - uma autêntica final, por capricho do calendário e dos resultados anteriores. A duas semanas de receberem o Mundial, que não ganham desde a primeira edição, em 1987, também disputada em casa, há quatro milhões de neozelandeses em choque.

Compreende-se: depois de dois anos quase invictos (com uma única derrota, igualmente às mãos dos Wallabies, mas num jogo amigável), esta foi a segunda azia consecutiva. Há semana e meia, jogaram e perderam contra a África do Sul, em Durban, mas ninguém levou aquilo a sério. A jogar com uma equipa B, nitidamente em poupança de esforços, mesmo assim os All Blacks dominaram os Springboks e só perderam à conta de dois ensaios anulados (um mal, outro bem) e da falta de pontaria de um Dan Carter com a cabeça no Mundial.

Desta vez foi a doer e ambas as equipas jogaram na máxima força. Estava mais em jogo do que simplesmente uma vitória sobre os eternos rivais ou mesmo a vitória na principal prova do hemisfério sul. Ninguém tinha dúvidas de que se enfrentavam, na noite de Brisbane, os dois candidatos maiores a erguer a próxima William Webb Ellis. Quem vencesse, partiria em vantagem. E não foram os Kiwis... Para agravar as coisas, o actual treinador da Austrália, Robbie Deans, é uma velha glória All Black e o primeiro estrangeiro a comandar os Aussies. Cada vitória sobre as antigas cores é vista pelos seus compatriotas como uma espécie de traição. Se Deans ganhar o Mundial, o melhor é pedir asilo político a Camberra.

Claro que, para o resto da Humanidade, tudo isto são excelentes notícias. O mito da invencibilidade maori foi pela água do Pacífico baixo. O espectro de um Mundial com vencedor antecipado, tão evidente era até há dois dias a superioridade dos anfitriões, seguiu o mesmo caminho. O Pacífico tem muita água. E, além de Boks e cangurus, a setentrional Inglaterra também desfraldou as velas e parte com o vento pelas costas, depois de ter resolvido a falta de bússola dos centros com o recrutamento de Manu Tuilagi, um jovem 13 de origem samoana (as águas do Pacífico...) que marcou dois ensaios em dois jogos de rosa ao peito e promete ser uma das revelações nos antípodas. E ainda há a França, sempre imprevisível -  e sempre disposta a cumprir a missão providencial de reduzir  a pó as esperanças neozelandesas, como em 1999 e 2007. A revista Rugby World dizia, meio a brincar meio a sério, que os frogs estão a jogar tão mal que se preparam para ser finalmente campeões do mundo. Allez les Bleus! Em suma, é tempo de ir buscar umas cervejas e sentar-se à frente da televisão. Alguém tem que combater a crise.

publicado por Pedro Picoito às 17:50 | partilhar