Crónicas do Planeta Oval

 
Começa amanhã o Mundial de rugby de 2011. A Nova Zelândia, que recebe a prova, é a favorita. Joga diante do seu público,  só perdeu dois jogos oficiais nos últimos dois anos, está motivadíssima para reconquistar um troféu que lhe escapa desde a primeira edição, por sinal também disputada em solo neozelandês há um quarto de século, e, last but not the least, está a jogar o melhor rugby do universo.
Mas...
Até há quinze dias, ninguém duvidava, mesmo dizendo o contrário, que este Mundial seria um passeio para os All Blacks. Entretanto, os vencedores antecipados perderam dois jogos seguidos - o tal par de derrotas oficiais depois do biénio invicto - e logo com os maiores rivais: a África do Sul, ainda campeã do mundo, recorde-se, e a Austrália, vencedora do recente Três Nações. A dúvida instalou-se entre a confraia da oval, de Glasgow a Otago, e os prognósticos são agora mais reservados. Entre cervejas, num pub da Velha Albion ou de num bar de praia das Fiji, muitos adoptaram a sábia máxima "prognósticos só no fim do jogo" do nosso João Pinto, mesmo desconhecendo inteiramente o dito João Pinto. De momento, a pressão sobre os All Blacks é terrível. Toda a Nova Zelândia, onde o rugby constitui uma espécie de religião nacional, está a suster o fôlego até à vitória final - ou à eliminação precoce. Ainda assim, arrisco que os kiwis vão vencer. Duas derrotas não fazem a Primavera (dos outros) e quem os viu nos últimos meses sabe bem que eles valem: muito. Arrisco mais: Dan Carter será o melhor marcador da competição e Richie McCaw, o capitão neozelandês, será eleito o melhor jogador (tendo em conta a importância das fases dinâmicas no rugby actual, é previsível que a escolha recaia sobre um terceira linha). 
Isto é o que eu prevejo - e temo - que venha a acontecer. Mas o que eu gostaria mesmo de ver é diferente. Gostaria de ver os Springboks revalidarem o título porque o país teria mais quatro anos de paz social. Gostaria de ver a França, num dos piores momentos da sua gloriosa história de altos e baixos (primeira derrota com a Itália no Seis Nações, maior derrota de sempre com a Austrália, etc.), cumprir o destino de mandar os maoris mais cedo para casa, embora os maoris já estejam em casa. Gostaria de ver eleito como melhor jogador um dos cintilantes três-quartos australianos porque o rugby aberto de Will Genea, Quade Cooper, James O`Connor e Kurtley Beale merece todos os aplausos. Ou Chris Ashton, o mais fantástico ponta inglês desde David Duckham, porque isso significaria que a Inglaterra se tinha convertido ao jogo aberto, pelo menos durante um breve mês de loucura. Ou um jovem americano ou russo, ainda desconhecido, que contagiasse a paixão do rugby ao seu grande povo. Sim, deixem-me sonhar. Eu vi o futuro e não é negro.
Até lá, torço sempre por três equipas: a Irlanda, a África do Sul e a que joga contra a Nova Zelândia.
A Irlanda não tem hipóteses. Depois de quatro derrotas nos jogos de preparação, incluindo contra a Escócia, passar aos quartos de final será um prémio. Só peço que eliminem a Inglaterra, que é para isso que existem (e para fazer a melhor poesia do universo, o que talvez compense não jogarem o melhor rugby do universo, dom atribuído por Deus, como se sabe, a uns tipos dos antípodas de que não me lembro o nome). Dos Boks já disse o que espero, mas sem grandes ilusões. Este ano foram capazes do bom (vitória sobre os All Blacks no Três Nações) e do péssimo (derrota com os All Blacks no Três Nações), de modo que a esperança é moderada. Sobram nobres nações como o Japão e o Canadá, às quais nada me prende a não ser a circunstância de enfrentarem os anfitriões na fase de grupos. Meus amigos do sol nascente e da folha do ácer, ides ser feitos em picadinho por aqueles bárbaros dos mares do sul, mas ficai a saber que o meu coração estará convosco. Se conseguir ver os jogos, claro. 
publicado por Pedro Picoito às 17:47 | comentar | partilhar