Homícidio premeditado comunitário

Gostei de ler a crónica do Rui Tavares no PÚBLICO de hoje sobre a pena de morte e o significado comunitário do ritual associado ao seu cumprimento. Numa frase: nas comunidades políticas onde a pena de morte é praticada, todas as pessoas que a ela pertencem participam da sua autoria. Enquanto lia tão interessante exercício sobre a pena de morte, ia-me perguntando em que medida o Rui Tavares não poderia escrever exactamente o mesmo sobre o aborto. É que no aborto está tudo o que o Rui Tavares descreve na pena de morte: a hora marcada; o lugar combinado; o equipamento necessário; o funcionário público pago para o fazer; a forma escolhida; a aquisição e armazenagem de produtos; um departamento inteiro organizado para que tudo corra na perfeição. Quando acabei de ler o texto, voltei ao início. E é então que me detenho, logo no primeiro parágrafo, na solução mágica: "ser consciente". O Rui Tavares tem o cuidado de perguntar Pode um 'ser consciente' ter hora marcada para ser morto? Claro que não pode. Já um ser apenas, um ser inconsciente, um ser que é praticamente nada (não obstante estar a caminho de vir a ser tudo), pode. A inconsciência é tramada. 

 

publicado por Nuno Lobo às 11:37 | partilhar