Os rankings a fingir

 

Todos os anos, a publicação dos rankings das escolas coloca o debate sobre a Educação nas primeiras páginas. Infelizmente, a informação é tão pobre que os rankings são tão injustos como metodologicamente inqualificáveis. O resultado é que, repetidamente nos últimos 11 anos, o debate por eles provocado se resume a uma única questão, a inconsequente comparação entre escolas estatais e escolas privadas. Está na hora de darmos um passo em frente, e basta olharmos à nossa volta, na UE27, para observarmos que ninguém tem rankings como os nossos, de tal modo imperfeitos que a sua utilidade deve até ser questionada (amanhã volto ao assunto).

 

1. É consensual que o nível socioeconómico de um aluno é um importante factor explicativo do seu desempenho escolar. Ora, para se avaliar as escolas, i.e. para que os dados entre escolas sejam comparáveis, ter-se-ia que controlar as variáveis socioeconómicas dos alunos, de modo a verificar se os desempenhos obtidos são resultado do contributo da escola ou se são resultado das características do aluno. Como isso não acontece, o que neste ranking se faz é classificar as escolas em função dos alunos que têm, desconhecendo-se o impacto da escola nos desempenhos dos alunos. Como tal, não deve surpreender ninguém o facto de as escolas que se classificam nos lugares cimeiros, privadas (porque se pagam propinas) ou públicas (porque estão localizadas em zonas residenciais privilegiadas), terem um corpo estudantil com níveis socioeconómicos acima da média nacional.

 

2. O que poderia ser feito para isto ser um ranking a sério? Exemplos internacionais não faltam. O método que considero mais interessante consiste em, controladas as variáveis socioeconómicas, identificar, no que é mensurável, o impacto de uma escola no desempenho escolar de um aluno através do valor acrescentado pela escola: os resultados dos exames dos alunos são analisados em termos relativos, face aos seus desempenhos prévios, observando-se a evolução (positiva ou negativa) dos desempenhos e atribuindo-se a diferença à escola. Deste modo, é possível reconhecer, por exemplo, uma escola que, tendo alunos piores (e que por isso se classifica a meio do actual ranking), consegue elevar os desempenhos escolares dos seus alunos em, por exemplo, 4 valores, sendo nesse aspecto uma escola melhor do que as que, embora se classifiquem no topo do actual ranking, tiveram um impacto nulo nos desempenhos dos seus alunos.

 

3. Então, porque razão não existe um ranking como deve ser? A pergunta é óbvia e a resposta também: nunca houve no Ministério da Educação interesse em fazer rankings sérios, pelo que sempre foi suficiente, a cada ano, desvalorizar o actual modelo de ranking. Dizem que há riscos de a informação ser mal (?) utilizada, que é como quem diz “you can’t handle the truth”. E se calhar, nesse ponto, até têm razão: é que o conceito de ranking desvirtua o conceito vigente em Portugal de igualitarismo na “escola pública”, i.e. a imagem na opinião pública de que as escolas são todas iguais – não existe no actual vocabulário da educação o conceito de “má escola”. Amanhã volto a este tema.

 

4. Esta situação actual, em que o Ministério da Educação é o exclusivo detentor e produtor de informação sobre a Educação nacional, tem de acabar. E, note-se, não se está a falar de reformas pesadas e difíceis, mas de algo muito mais simples: trabalhar uma base de dados, pô-la ao serviço da informação do público e permitir que outros (institutos, think tanks, partidos) tenham acesso não só às conclusões mas à própria base de dados, para que façam os seus próprios estudos, seguindo as suas linhas de investigação e acrescentem conhecimento sobre a educação nacional.

 

5. Se o Governo quer dar autonomia às escolas e liberdade de escolha aos pais (está no seu programa), é necessário – aliás, é fundamental – que exista, ao serviço do público, uma informação fidedigna e de elevada qualidade, pois só estando bem informado se é livre para decidir.

publicado por Alexandre Homem Cristo às 12:02 | comentar | partilhar