Sobre a igualdade e as avaliações a fingir

 

É sabido que, em Portugal, a existência de uma avaliação não implica, forçosamente, que algo ou alguém seja avaliado. Vivemos num conflito permanente entre a legitimidade (tem de haver avaliação) e a igualdade (a avaliação obriga a fazer distinções), e a solução geralmente encontrada, comum aos diferentes sectores da sociedade, é fazer uma avaliação a fingir – ninguém poderá dizer que não houve avaliação (obtém-se uma ilusão de legitimidade), embora não se corram os riscos de haver distinções (preserva-se a igualdade). Nesse conflito permanente, entre legitimidade e igualdade, o equilíbrio ganha-se com a supremacia da igualdade, equivalente à recusa absoluta do pressuposto natural de uma avaliação, que é não sermos todos iguais.

 

A ausência desta espécie de lei natural, que em Portugal é ideologicamente contra-natura, explica em parte porque razão se mantêm, a cada ano, rankings de escolas imperfeitos, de modo a deliberadamente alimentar mitos em vez de avaliar as escolas com seriedade. E no caso da Educação, o problema é particularmente grave. Em primeiro, porque a educação requer, pelo menos, a avaliação dos alunos (a resposta igualitária foi o facilitismo). E em segundo porque, ao contrário de, por exemplo, na Saúde, onde se distinguem os hospitais, na Educação não se pode distinguir entre escolas públicas, de tal modo que a designação oficial de “Serviço Público de Educação” é “Escola Pública”, no singular.

 

As consequências são conhecidas. Os rankings das escolas servem sobretudo para desviar as atenções sobre o que é essencial. A negociação do modelo de avaliação docente não deu em nada, apenas numa maratona que consagrou Mário Nogueira como o Secretário-geral sombra do PCP. A busca pelo sucesso escolar provocou uma avalanche de certificações tal (Novas Oportunidades) que atingimos o topo dos rankings da OCDE quanto à conclusão do ensino secundário, algo logicamente incompatível com o facto de sermos recordistas em abandono escolar (cerca de 30%).

 

O projecto reformista não se trava apenas no Ministério. Há que libertar a opinião pública dos mitos que favorecem os interesses instalados e que por estes são alimentados, publicando-se informação objectiva e de qualidade, disponibilizando bases de dados, e permitindo que outros também estudem e publiquem. Isto é apenas o mínimo do que se pode exigir.

publicado por Alexandre Homem Cristo às 08:00 | partilhar