A natureza dos ocupas de Nova Iorque

A Europa fica sempre fascinada com os movimentos de protesto made in USA. São sempre encaradas como revoluções que vão mudar a face da América e do mundo. Isto claro, se forem de esquerda. Porque se forem de direita e pedirem uma redução do peso do estado na sociedade, como aconteceu com os movimentos de protesto do tea party, são logo desconsiderados e encaixotados com termos pouco edificantes. Tenho lido com atenção o que por cá se vai escrevendo sobre estes recentes protestos em várias cidades norte-americanas. E o que tem este movimento tão diferente de anteriores que o distingam do movimento anti-guerra dos anos Bush, dos protestos anti-nucleares da década de 80 ou até das grandes manifestações anti-guerra da década de 60? Há uma nova classe de americanos que sai às ruas? Ou são os mesmos do costume, dentro da tradição da extrema-esquerda americana? Pelo que tive a oportunidade de observar até ao momento, nada de diferente tem acontecido. Aliás, segundo li no Daily Beast, ontem terão participado 10 mil pessoas na marcha de Nova Iorque, um número muito inferior a protestos semelhantes do passado promovidos pelas mesmas pessoas, sem bem com alvos de contestação diferentes. Muito pouco para um movimento que dizem que vai mudar a face da América.

 

Por outro lado, é importante saber o que dizem e quais as soluções que pedem estes indignados norte-americanos. Será que as suas reivindicações podem obter um apoio da maioria dos americanos? Será que o Partido Democrata pode acolher estas propostas e incluí-las já na sua plataforma já nas eleições para o próximo ano? Haverá aqui algo sustentado e organizado, que poderá levar a que candidatos afectos ao movimento sejam eleitos nas eleições do próximo ano? Por fim, teremos aqui um manifesto político para a nova esquerda americana? Apesar de não haver aqui uma critica sustentada, além das tiradas populistas anti-capitalistas, nem um conjunto de soluções práticas apresentadas pelos "ocupas", podemos encontrar algumas ideias que nos dão uma ideia do que pretendem para o futuro da América. Fui ler o seu manifesto e o resultado não é bonito. Entre outras medidas exóticas que têm sido pedidas, destacava o fim dos acordos de comércio livre, imposição de taxas para todos os bens importados, o aumento do salário mínimo para 20 dólares por hora (actualmente é de 7.5$), a exigência de um salário para todos os americanos, independente se trabalham ou não, fronteiras abertas e acabar com as leis de emigração americanas, educação grátis no ensino superior, perdão da dívida no planeta (esta é das mais interessantes - todos os que têm dívidas no mundo, países ou indivíduos, veriam a sua dívida perdoada) e um bilhão de euros em investimento público e outro em energias renováveis. Estas são algumas das medidas que divulgaram por estes dias. Algum partido concordará com isto? Não me parece. Alguém acredita que isto que exigem é praticável? Estas ideias darão lugar a alguma revolução nos Estados Unidos e haverá alguém com responsabilidades disposto a dar a cara por elas? Nem pensar. Quanto muito, Barack Obama, o político que mais dinheiro angariou de Wall Street nas eleições de 2008, poderá cavalgar na onda dos protestos, para retirar dividendos eleitorais. Mas aplicar esse programa político? Só em sonhos.

publicado por Nuno Gouveia às 21:47 | partilhar