Ó estatuto social, quanto do teu sal é veneno para Portugal!

     Vi-me vermelho, mas contive-me, afinal estavam em minha casa. Fingi a calma que não sentia e uma sabedoria que não possuo. Expliquei-lhes que na Holanda também há mulheres-a-dias. Emprega-as  quem, por trabalho ou filhos pequenos – não por estatuto social – necessita de ajuda. E são caras. Dez a quinze euros por hora para as ilegais, vinte e oito para as restantes. Em quatro horas fazem os trabalhos pesados, o casal ou a família trata do resto durante a semana. Salvo casos muito excepcionais, a ninguém, mesmo aos ricos, passa pela cabeça ter mulher-a-dias a semana inteira.
     Preferi esquecer que um holandês ou holandesa acharia imoral, e um desperdício, estar horas numa esplanada, cinema ou chá das cinco, em vez de lavar a roupa ou sacudir a passadeira.
     Ética calvinista? Pois será. Mas abençoada terra de moral, respeito,  justiça e igualdade. Infeliz pátria onde trabalhar ainda é "p'ró preto".
 
publicado por Tiago Mendes às 15:24 | comentar | partilhar