Por favor, calem-me o ministrozinho

 
"Temos que deixar de lado as nossas guerrinhas habituais."
 
 

Ao dizer aquelas palavras de uma sensatez dificilmente concebível, o ministro referia-se  às posições discordantes dos sindicatos – em geral, às posições enquanto tais que divirjam  das propostas do governo. Acontece que, nestes tempos, as contraposições dos sindicatos (até de alguns filiados nos TSD, não necessariamente os mais meigos) nem são tomadas de ânimo leve, nem devem ser consideradas pelos governos de ânimo leve. Qualquer pessoa com dois dedos de testa se apercebe disto. A leveza acabou. Quem está em certos lugares, tem que ter cuidado com o que lhe sai (mantendo o mesmo registo sensível) da boquinha. Os sindicatos, a generalidade dos sindicatos, não discutem questões de lana caprina. Por exemplo, trata-se, apenas, do estabelecimento de trabalho não remunerado (no caso da famosa meia hora por dia, duas horas e meia por semana). E, para além disso, noutras matérias, a montante e a jusante, trata-se , também, nem mais nem menos, da degradação e-fec-ti-va das condições de vida de muita gente. E discutir isso, ó Álvaro, não são "guerrinhas".

 

É costume falar-se de responsáveis políticos que “não têm mundo”. Pois bem, não é por se ter vivido e trabalhado no Canadá que se passa a “ter mundo”. Ter mundo não é andar a mudar de casa pelo mundo. (Brincando, apetece falar do Xavier de Maistre…). Um sintoma dessa falta é, precisamente, dizer disparates quando nos referimos a coisas sérias, não cuidando se se insultam terceiros que não partilham do nosso conforto. Quem não é capaz de entender uma coisa elementar como esta não deve ser ministro. Talvez quem chame “guerrinhas” às tomadas de posição nos conflitos sociais (que não são abstractos, há pessoas reais com problemas, aflições reais por detrás), talvez esse só conheça as batalhinhas dos departamentos universitários.

 

Por mim, se estivesse no plano inclinado de naufrágio em que se encontra muita gente e me aplicasse nas "guerrinhas" crendo, com isso, defender-me a mim e aos meus, não me admiraria que - e digo-o com toda a simpatia -, encontrando o homem, lhe pregasse dois estalinhos na cara. Está a pedi-las. Depois, queixem-se.

publicado por Carlos Botelho às 01:26 | comentar | partilhar