Crónicas do Planeta Oval: Daqui a quatro anos

1. Este foi o Mundial dos terceiras-linhas, já o disse. Com o predomínio dos pontos de quebra de fase na dinâmica do jogo, os asas e o número 8 vieram para o centro do palco. A sua mobilidade, a sua inteligência, a sua capacidade de antecipar a acção dos adversários, a sua eficácia em fazer oposição sem fazer faltas, eis o campo de batalha do rugby actual. Já não é a conquista de bola nos alinhamentos e nas formações ordenadas, já não são as cargas de cavalaria dos três-quartos. O brave new world.
Se pensarmos nas equipas do pódio e arredores, imediatamente nos ocorrem um ou dois terceiras-linhas de topo: McCaw e Kaino na Nova Zelândia, Dusautoir e Harirnorduquy na França, Pocock e Rocky Elsom na Austrália, Warburton e Faletau em Gales. E está longe de ser apenas coincidência que estes jogadores tenham jogado mal, pouco ou nada nos encontros em que as respectivas equipas tiveram mais dificuldades. Pocock estava lesionado na derrota dos Wallabies contra a Irlanda, recuperou a tempo de vencer quase sozinho os Springboks, mas perdeu para Mc Caw na meia-final. Contra os All Blacks na fase de grupos, Harirnorduquy ficou no banco durante toda a primeira parte e a França levou três ensaios irrecuperáveis (mesmo depois das substituições óbvias ao intervalo). A expulsão de Warburton contra a França custou aos galeses um lugar na final e a sua exclusão contra a Austrália talvez lhes tenha custado o bronze. A surpreendente campanha dos irlandeses deve muito a uma terceira linha de classe - Heaslip, Ferris e O`Brien - que não soube, porém, ultrapassar a congénere de Gales.
Inversamente, as relativas desilusões da Inglaterra e da África do Sul podem atribuir-se, entre outras coisas, a uma notória quebra de forma de veteranos como Lewis Moody, campeão do mundo em 2003, e Shalk Burger, campeão do mundo em 2007. 
 
2. Os pequenos países merecem um aplauso especial. A vitória de Tonga sobre a França fica para a história, mas a resistência de Samoa aos Sprinboks e da Argentina aos All Blacks também. Graças à profissionalização do rugby, o fosso entre os big 8 e os outros é cada vez menor. Ao contrário do que previam Marx e a "Internacional", o triunfo do capitalismo está a criar "uma terra sem donos".
 
3. Será verdade, como dizia há tempos a revista Rugby World, que os centros pequenos já não contam? Olha-se para Ma´a Nonu, Mermoz, Rougerie, Jamie Roberts, Tindall, Tuilagi, Jaque Fourie, François Steyn, e a blindagem parece ser a regra. Velhos corcéis com a finesse de Mike Gibson, Jo Maso, Danny Gerber, Guscott, Charvet, Tim Horan, Jason Little dificilmente teriam lugar no meio campo moderno. E, no entanto, a Nova Zelândia triunfou com um 13 clássico, Conrad Smith, que talvez não destoasse num jogo de júniores, mas sabe que o caminho mais curto nem sempre é a linha recta. Ainda há esperança.
 
4. A melhor escola continua a ser a neozelandesa. Das nações que ficaram nos quatro primeiros lugares, quatro tinham treinadores kiwis: a Nova Zelândia, naturalmente (Graham Henry), a Austrália (Robbie Deans) e Gales (Warren Gatland). A excepção foi a França, que chegou à final não por causa, mas apesar de Lièvremont.
 
5. O que me leva à seguinte pergunta: o que teria acontecido aos Bleus com outro Mister? Com alguém imune à mania francesa de fazer a revolução todos os dias, que experimentse o que lhe apetecesse nos primeiros tempos, escolhesse depois um XV base, o rodasse uns meses antes do Mundial e o pusesse sempre de início durante a prova? Alguém que não deixasse Jauzion e Bastareaud em casa e, em vez deles, nos desse a centros dois armários disléxicos como Mermoz e Rougerie? Alguém que não mandasse contra Dan Carter, o abertura mais genial que pisou um campo de rugby nos últimos dez anos, um formação adaptado ao lugar como Parra? Alguém que não tentasse usar Pape, mais a sua venerável semelhança com uma freira de clausura paralítica, a número 8? 
 
6. Daqui a quatro anos há mais. Agradeço a todos os que deixaram comentários nas crónicas que fizeram esta longa série. Uma paixão partilhada sabe sempre melhor.
publicado por Pedro Picoito às 13:47 | comentar | partilhar