Os Bizantinos

 

 

No início da década de 90, aquando de uma aventura académica em Inglaterra, conheci um estudante grego de leis, com sérias ambições políticas. Conheci-o quando, acabado de me instalar na residência universitária do campus, fui directo com uma amiga portuguesa às áreas sociais para ver o ambiente. Mal nos aproximámos do bar alguém se dirigiu a nós e inquiriu num inglês meridional, ainda que correctíssimo, qual era a nossa nacionalidade. Ao perceber que éramos portugueses mostrou uma agradável surpresa e tratou logo de demonstrar que conhecia razoavelmente bem a História de Portugal. Chamava-se Nikolas e era grego.

Aproveitámos para perguntar qual a razão de tão pouca gente por ali, e ficámos a saber que tinha havido um feriado junto ao fim-de-semana, razão pela qual muitos ingleses e outros europeus continentais, sobretudo alemães e holandeses, tinham aproveitado para ir a casa. E terminou o tema com um seco – The barbarians are out. Percebi que para ele, muitos dos europeus não eram ainda gente que se possa convidar para comer à mesa, os seus amigos eram, na maioria: italianos, espanhóis, israelitas, francesas, e até mesmo alguns turcos (mas só os que tinham amigas).

 Foi nas conversas com o Nikolas que fiquei a conhecer o pensamento político de uma determinada elite política grega, mais concretamente no que respeita à Turquia, que mais do que a Europa, era o tema que lhes interessava. E o que pensava e dizia ele, por exemplo:

-A Turquia seria sempre um inimigo mortal, as guerras tinham-se sucedido num intervalo de 30 anos, a última nos anos 70, aquando da crise do Chipre, pelo que estaria para acontecer algum confronto em breve.

- Enquanto a Turquia tivesse aquelas taxas de natalidade, os gregos continuariam a investir forte na defesa nacional.

- Não são quinhentos anos de ocupação turca de Constantinopla, que se sobrepõem a um império que durou um milénio, e por direito voltará a ser grega.

 Pareceram-me à data, ideias verdadeiramente “bizantinas” para um europeu contemporâneo, tanto mais que a Turquia era também membro da NATO – estávamos no final do século XX e já só se falava de paz e prosperidade na Europa, o futuro era radioso e a história tinha chegado ao fim.

Mas a história não tinha morrido, e logo em 1996 voltei a lembrar-me das nossas conversas quando foi noticiado que um avião Mirage grego tinha abatido um F16 turco, sobre o Mar Egeu. Há 5 anos, em 2006, deu-se a colisão de dois F16, um turco e o outro grego durante um suposto voo de reconhecimento, o piloto grego morreu e a operação foi denunciada como um acto de espionagem da Turquia sobre a ilha de Creta. Quase todos os anos a Grécia denuncia incursões de aviões militares turcos, sobre o espaço aéreo grego no Mar Egeu.  Os altos comandos militares recusam-se a aceitar cortes no orçamento que ameacem ou comprometam a segurança e a defesa da Grécia, e acabaram demitidos.

 

 

Hoje estou convencido que Nikolas era, à data, um europeu verdadeiramente contemporâneo, talvez o devesse à sua superior cultura política, mas também por ser membro de uma família que é ainda hoje um importante clã político na Grécia. Talvez os “bizantinos” ainda existam, e sejam hoje os políticos europeus que insistem em governar a Europa à revelia da sua história.

publicado por Victor Tavares Morais às 19:23editado por Paulo Marcelo em 25/11/2011 às 10:55 | partilhar