Contas em família (4)

Não deixa de ser curioso que em Portugal, quando se fala do endividamento das famílias e da insustentabilidade de certo tipo de estruturas financeiras - créditos incomportáveis que originam mais créditos só para pagar juros dos créditos anteriormente contraídos, num conhecido efeito bola de neve -, é comum referir "os encargos com os empréstimos", mas quando se fala de finanças públicas é raríssimo falar nos custos com a dívida pública.

 

Em particular, João Proença e Carvalho da Silva parecem particularmente insensíveis, ou pelo menos alheios a esta questão.

 

Os encargos com a dívida podem subir via dois efeitos parciais: primeiro, quando, assumindo um stock de dívida constante, as novas emissões de dívida são feitas a uma taxa de juro superior à taxa das emissões vencidas; segundo, quando o stock de dívida cresce, por efeito de a nova dívida emitida ser superio à dívida vencida. Naturalmente, ambos os efeitos podem acontecer conjuntamente.

 

O problema de encargos maiores com a dívida é simples: ou se reduzem outras despesas do Estado - salários, subsídios, gastos com o SNS, etc -, de modo a manter o défice controlado; ou se aceita aumentar o défice, emitindo nova dívida. Emitir nova dívida significa aumentar, passo a passo, a insustentabilidade das finanças públicas, e o risco de eventual incumprimento, com consequências catastróficas para o país. Não aumentar a dívida implica diminuir gastos do Estado.

 

Os mandarins Proença e da Silva, que não querem que o Estado diminua as suas despesas, à implicação que tal tem na evolução da dívida, seus encargos futuros, etc, dizem nada. E isto não pode acontecer. Os jornalistas, os interlocutores, têm de perguntar: mas o senhor tem noção do impacto que o crescimento do serviço da dívida tem? O senhor não se preocupa com o efeito de bola de neve e a roubo que tal representa às gerações futuras?

 

É urgente trazer para a praça pública a discussão sobre os encargos da dívida

publicado por Tiago Mendes às 16:07 | comentar | partilhar