Heróis da terra

João Bonifácio, um dos melhores cronistas da pop portuguesa em actividade nos jornais, recorda hoje no ipsilon os trinta anos dos Heróis do Mar. Nunca fui grande fã do grupo, apesar de ter cantado muitas vezes o "Só gosto de ti" (todos temos os nossos momentos embaraçosos). Pior ainda, ensinei a coisa aos meus filhos e berramo-la de vez em quando em viagem, para vergonha da digníssima senhora que toma conta de nós (e que também tem os seus momentos embaraçosos, por culpa alheia e da fidelidade matrimonial na alegria e na desgraça). Imaginem a cena: uma Peugeot 307 cheia de putos e um quarentão decadente a gritar "AFINAL VALE A PEEEEENA... NÃO PENSAR EM MAIS NINGUÉÉÉÉÉÉÉÉÉEM...", etc., enquanto a digníssima senhora tenta convencer quem nos ultrapassa, por meio de gestos, que não foi raptada por um bando de anões loucos chefiados por um ogre. Um horror liliputiano que talvez explique a súbita vontade de emigrar para a Arábia Saudita. Sozinha.
Tirando os momentos embraçosos, portanto, nunca fui um devoto, nunca me cativou muito aquela mistura de sintetizadores e saudosismo, nunca tive paciência para o famoso debate sobre se seriam ou não de direita. Era boa música e chegava. E também um conceito, uma estética total, uma narrativa coerente das letras aos adereços. Algo de novo entre nós. Com a sua originalíssima fusão de referências, eles eram a primeira banda pós-moderna portuguesa. Até aí, a música lusitana tinha sido dominada pelo irredentismo da canção de intervenção, com um linha secundária que ia dar aos Trovante, a que se seguira a hegemonia igualmente sólida do rock urbano dos UHF, GNR, Xutos e Pontapés e afins. Os Heróis do Mar eram outra coisa, não necessariamente melhor, certamente diferente, em grande parte graças a um encenador de génio chamado Pedro Ayres Magalhães.
Talvez por isso, como nota o realizador Edgar Pêra no supracitado artigo, o projecto Heróis do Mar "passou de eléctrico a acústico e internacionalizou-se sob o nome de Madredeus". O sucesso de Teresa Salgueiro e companhia deve muito a uma certa ideia de portugalidade nascida na anterior experiência de Magalhães. Ironicamente, foi o folclore nacionalista dos Heróis do Mar, na altura execrado pelos corifeus do progresso, que deu a muita gente lá fora a imagem do Portugal moderno antes de Figo e Cristiano Ronaldo. Sic transit gloria mundi e tal.  
publicado por Pedro Picoito às 22:31 | comentar | partilhar