O Feriado explicado às crianças

A eliminação dos feriados do 5 de Outubro e do 1º de Dezembro é uma pouca-vergonha política e cultural. [Sim, riam.]

 

 Se a Igreja entra na barganha de "ter feriados para a troca" e aceita suprimir o do Corpus Christi e o da Assunção de Maria, é lá com ela. E se os Católicos se sentem representados nessa opção, é outra história...

A apregoada "indiferença" e/ou "ignorância" indígenas, para além de não serem geograficamente homogéneas, são irrelevantes, porque o critério para o sentido de um feriado não é estatístico. (A celebração é outra coisa.)

Acabar com o Dia da Implantação da República já é extraordinário. Aquela, para lá de todas as birras monárquicas, não deixa de ser uma data verdadeiramente patriótica [Sim, continuem rindo.]: em grande medida, é aos Republicanos que devemos a concepção politicamente assumida de Portugal como objecto de patriotismo. Salazar teve a inteligência de incorporar a ideia, não de a deitar fora. Aquelas birras monárquicas em relação ao 5 de Outubro são formalmente equivalentes à embirração que uns putos que por aí andam experimentam pelo 25 de Abril - esses, por impotência histórica e temor supersticioso, coitados, dizem apenas "25 do A." (Ah! quanto não dariam eles, na sua fixação infantil, pela supressão daquele dia entre o 24 e o 26...). Estes, por sua vez, são também formalmente equivalentes àquela aversão imbecil ateia que puxa da pistola de cada vez que avista duas rectas cruzadas a 90º e que sonha com a eliminação purificadora de todos os feriados religiosos, atingindo-se assim o asséptico Paraíso dos laicos. Como se vê, nesta história, há palermices para todos os gostos.

Mas, talvez mais extraordinário ainda, realmente inconcebível é a eliminação do 1º de Dezembro. Ainda se lembram do que a data representa?... Não é apenas uma mudança de regime... Trata-se de algo mais fundamental. E passam pela possibilidade da coisa como cão por vinha vindimada?...

É claro que há quem defenda a coisa sem sequer pestanejar, quem não veja aqui um problema - mas esses, já se sabe, seriam capazes de vender a própria mãe. (A questão está somente na quantia a receber.) Só mesmo uma curteza de vistas deprimente pode ver num feriado (para mais, naqueles) uma espécie de institucionalização da preguiça ou coisa que o valha. É mesmo de quem não alcança que um feriado constitui uma desaceleração, ou mesmo uma paragem do tempo quotidiano. Essa paragem não corresponde a uma mera coloração diferenciada do mesmo tempo. Corresponde a uma verdadeira alteração do tempo - irrompe outro tempo. Por isso, suspende-se o trabalho (a nossa condição "natural" desde a Queda adâmica), põe-se como que entre parênteses o sofrimento do labor quotidiano. E pode acontecer qualquer coisa como uma "festa originária". Ora, acontece, meus queridos, que essas "festas" não são descartáveis. São constitutivas.

publicado por Carlos Botelho às 23:25 | comentar | partilhar