As revisões curriculares e a autonomia

1. Muitos fizeram ontem questão de assinalar, num tom crítico e direccionado ao Ministro da Educação, que as alterações e as revisões curriculares têm-se sucedido ao longo dos anos, de Governo para Governo, e que isso tem tido um impacto (negativo) na qualidade do ensino. O problema desta crítica é que não é sequer pensada por quem a utiliza – não o é porque é oportunista, existe enquanto pretexto para criticar o conteúdo específico desta revisão curricular, ou acham que ouviríamos os sindicatos afirmar o mesmo se esta revisão aumentasse a dispersão curricular com quatro novas disciplinas? Ora, se fosse pensado, este argumento levaria a concluir que é normal cada Governo ter a sua visão estratégica e que, por isso, o problema é irresolúvel enquanto a estratégia de cada escola do país for decidida por um Ministério, i.e. enquanto as escolas não tiverem autonomia para definir quais as prioridades para a sua própria comunidade escolar. O que é problemático nesta conclusão, para os sindicatos, é que não é do seu interesse, enquanto organizações, que o Ministério da Educação abdique do seu centralismo, pois assim perderiam a sua influência negocial.

 

2. Muitos manifestaram as suas dúvidas acerca das vantagens da eliminação do ensino de uma 2ª língua no 2º ciclo do ensino básico. De facto, esta decisão levanta dúvidas, mas só é polémica na medida em que (ainda) constitui uma obrigatoriedade. Quando as escolas tiverem autonomia para decidir os seus currículos, num enquadramento devidamente acordado, muitas poderão manter o ensino de uma 2ª língua estrangeira, caso considerem que isso representa uma mais-valia na formação dos seus alunos e se enquadra no seu projecto educativo. Sendo o reforço da autonomia das escolas um dos objectivos do Governo, é de esperar que este tipo de problemas depressa deixe de existir.

publicado por Alexandre Homem Cristo às 12:44 | comentar | partilhar