Resposta de Gabriel Mithá Ribeiro

Caro Pedro Picoito,
Estou na essência de acordo com o que escreve, isto é, a orientação geral da política educativa para o básico e secundário parece-me a melhor das últimas décadas (até que enfim algo que se pareça com uma verdadeira reforma), embora possam ser melhorados aspectos pontuais, mas não se pode fazer tudo ao mesmo tempo. Quanto ao fim do desdobramento das turmas em algumas disciplinas é uma das ideias mais acertadas. Por várias razões. Concentro-me em algumas: é em parte a razão de nunca se ter resolvido estruturalmente o problema do excesso de número de alunos por turma, isto é, por causa deste tipo de «excepção»; não é racional a gestão de um sistema onde um docente trabalha com 13-15 alunos e outro da mesma turma com 25-27 a pretexto de certas actividades específicas (experimente leccionar história ou geografia com as duas opções e perceberá o que quero dizer); há professores que há décadas carregam o fardo do excesso de alunos e outros aliviados, isto é, numa mesma escola (e às vezes no mesmo grupo disciplinar) podem existir dois docentes com horários completos em que um tem 50 alunos e outro 200 e recebendo salários proporcionalmente equivalentes, pois nem sequer percebo por que é que o rácio do número de alunos por professor não é um critério de gestão do trabalho docente (experimente ter duas rondas de testes escritos, ou profusamente escritos, por período e logo perceberá a diferença entre 50 e 200, para além de outros trabalhos escritos); o rácio do número de alunos por docente é distorcido por este tipo de situações como o desdobramento das turmas; é a própria coesão da ideia de turma e do conselho de turma que é posta em causa e tenho na memória a sobranceria com que alguns docentes olham para as queixas dos outros (de trabalho, de indisciplina, etc.), sendo alguns desses a «elite» que beneficia dessa «discriminação positiva»; não creio ainda que até hoje os resultados das aprendizagens alguma tenham justificado tais desdobramentos. Só espero que a medida sirva para uma diminuição a prazo do número máximo de alunos por turma e não para o contrário. O meio-termo seria o ideal, isto é, por hipótese, todos os docentes trabalharem com um máximo de 20 alunos por turma (é bem mais grave ter 25/27 numa aula «normal» do que subir de 13/15 para 18/20 numa aula «laboratorial»). Por outro lado, creio que a reforma poderia ter cortado um pouco mais ou, pelo menos, espero que isso seja feito à medida que se revejam os programas. Reporto-me ao caso concreto da disciplina de história do 10º ao 12º anos. Seis horas por semana é um exagero. Tantas horas por semana deixam de ser produtivas. Alunos e docentes fartam-se uns dos outros e da disciplina. Esta opção cria uma série de vícios que só um estado riquíssimo pode irresponsavelmente suportar (entra-se mais tarde; sai-se um pouco mais cedo; vêm-se mais filmes; os alunos habituam-se a estudar e a preparar tudo na aula, pois há tempo de sobra; usa-se e abusa-se de revisões; a gestão de comportamentos é bem mais difícil; etc.). Não há como parar esses vícios. O bom senso diz-me que para uma disciplina como história no secundário para que o docente imprima um ritmo de ensino razoável, sem quebras no acto de ensinar, quatro horas semanais são suficientes. Todos nós estudamos mais ou menos por essa bitola na faculdade e a extensão dos programas nunca foi obstáculo. Claro que no secundário é urgente rever os programas, mas é também claro que nós temos um problema de fundo de preguiça pedagógica «cientificamente» doutrinada que passamos aos alunos como se não soubéssemos que quem, por exemplo, lê/aprende mais depressa aprende melhor e mais. Com todos os cuidados que uma medida dessas implica, a verdade é que a escola deixou de pressionar no sentido mais útil e promove uma certa «levitação» em torno do conhecimento e não aprendizagens propriamente ditas. Portanto, se são óbivas as horas a menos no 3º ciclo para certas disciplinas, não são menos óbvios os excessos do secundário. Se tanto dinheiro mal gasto servisse bons propósitos, mas nem isso. Espero que estes sinais do ministro Nuno Crato sejam sinais de uma racionalidade que se vá consolidando sobre a orientação apologética, mas pesadíssima para o país, dos «cientistas da educação». Enfim.

publicado por Cachimbo de Magritte às 14:42 | partilhar