A nova escola de sempre

A luta é ideológica cerrada e corajosa.  Antes fui dizendo que sim, entusiasmado, e arregacei as mangas para  construir a «velha escola». Mas eis que chegam para dar cabo do ensino artístico. Levaram todos e agora querem-me levar a mim. Dos meus colegas de luta ninguém abriu a boca. Porque afinal o ensino artístico é tendencialmente de «esquerda», não é essencial, nem estruturante, nem inerente ao conhecimento científico, dizem eles porque ouviram dizer. Em suma, a revisão curricular tem a marca da «direita», dizem uns e outros. Mas tanto a «esquerda» como a «direita» foram tirando, nos últimos anos, horas ao ensino artístico ou lá o que aquilo ainda é.
A Faculdade de Arquitectura do Porto é das melhores escolas de arquitectura do Mundo. Deu recentemente dois prémios Pritzker a Portugal –  Siza Vieira e Souto Moura, coisa que alguns países desenvolvidos ainda sonham mas não têm. No entanto assenta o seu ensino no saber formal e técnico e na relação reverencial  mestre-aprendiz.  
Se tirássemos desta discussão os sindicatos e alguns preconceitos ideológicos, o ensino artístico talvez pudesse caminhar pelo próprio pé e ganhava a escola do conhecimento e, claro, do ensino artístico.  Está na hora de abrir a discussão sobre o ensino da história de arte a partir dos primeiros níveis de ensino ou, por exemplo,  juízos de valor sobre a cultura visual contemporânea. Todas as mensagens culturais baseadas na imagem, a mais promissora mudança da forma de comunicar desde a invenção da imprensa, estão todas entornadas para a esquerda.  Porque só os «maus» é que sonham com isto, enquanto nós sonhamos com os «maus».
Um conjunto de profissões como a arquitectura, o urbanismo, a moda, o design, o cinema e a televisão, a publicidade, ou alguma criatividade ligada ao desenvolvimento científico e tecnológico sustentam-se mais no pensamento visual  do que nos tais saberes fundamentais e estruturantes. Afinal o que tinha a Apple de especial para ganhar a guerra comercial à Microsoft? Um elevado discernimento lógico-matemático e linguístico? Ou a percepção do impacto visual do produto no consumidor? Vou escrever para o Ministério da Educação, talvez me «ouçam»…

publicado por Ricardo Roque Martins às 12:13editado por Paulo Marcelo às 12:13 | comentar | partilhar