mas foram os partidos islamistas que as ganharam
mas já fizeram saber que a futura Constituição se vai inspirar na sharia
Este texto está cheio de "mas". Faz-me lembrar um tempo em que a direita portuguesa se queixava de a esquerda escrever sempre frases com "mas".
pedro picoito a 30 de Janeiro de 2012 às 11:27
Tem razão, mas... (A ideia, obviamente, era mostrar que a Primavera Árabe trouxe consequências positivas, MAS também negativas. O balanço tem que ter em conta estes dois aspectos.)
Um teste decisivo será o respeito pelos direitos das mulheres, dos cristãos e de Israel
Não percebo o que faz Israel nesta trindade. Como se pode comparar os "direitos" de seres humanos (os cristãos e as mulheres) com os "direitos" de um Estado (Israel)? Para o Pedro os Estados têm direitos como os seres humanos?
pedro picoito a 30 de Janeiro de 2012 às 11:29
Por direitos de Israel entendo o direito de Israel à existência, uma questão das questões (se não a questão) mais sensíveis da geopolítica do Médio Oriente, com ou sem Palestina independente.
o direito de Israel à existência
Israel sempre existirá, no sentido em que sempre existirá um Estado que terá aquela terra como seu território.
A questão é saber qual a natureza desse Estado:
(1) Se será um Estado primariamente para judeus e no qual os cidadãos árabes tenham menos direitos.
(2) Se será um Estado exclusivamente árabe e do qual os judeus sejam excuídos.
(3) Se será um Estado misto em que todos os cidadãos, judeus e árabes, tenham direitos idênticos.
A grande questão não é a existência de Israel mas sim a sua natureza (exclusiva ou inclusiva).
Não, a grande questão para os partidos islamistas é mesmo a existência de Israel, não é a sua natureza. Para muitos árabes, Israel não pode existir, seja na sua versão 1, 2 ou 3.
lucklucky a 30 de Janeiro de 2012 às 19:53
"Não percebo o que faz Israel nesta trindade. Como se pode comparar os "direitos" de seres humanos (os cristãos e as mulheres) com os "direitos" de um Estado (Israel)? Para o Pedro os Estados têm direitos como os seres humanos?"
Percebe sim senhor. Você não quer é que existam Judeus com direitos. Assim como também se está nas tintas para os Árabes excepto se forem Heezballah, e só se forem contra Israel, aí sim devem ter todos os direitos.
Pelo contrário, eu o que acho é que pessoas humanas, judeus e árabes ou seja quem fôr, têm e devem ter direitos. Já os Estados terem direitos, acho muito esquisito.
pedro picoito a 31 de Janeiro de 2012 às 12:53
Era uma analogia, Luís Lavoura. Nunca ouviu falar em imagens literárias?
Anónimo a 31 de Janeiro de 2012 às 19:01
Não. Para si já sabemos que os Judeus não têm direitos todos. Não têm direito a ter um Estado.
Os Estados têm direitos, tal como todas as outras organisações humanas.
Sobre os direitos das mulheres, o exemplo mais marcante é a revolução que os EUA operaram no Iraque, revolução essa que trouxe uma regressão muito considerável nos direitos das mulheres iraquianas.
Não me parece que seja o que se vai passar nos países da Primavera Árabe, mas (lá está) espero para ver.
lucklucky a 29 de Janeiro de 2012 às 20:30
Vai ver-se claramente os limites da Democracia sem Republica - ou seja limites ao seu poder- e sem Direito de Secessão.
Vai ficar claro como a Democracia pode ser Totalitária quando o Estado Democrata tudo quer controlar na vida das pessoas.
pedro picoito a 30 de Janeiro de 2012 às 11:35
Veremos. A sua sua perspectiva, na minha opinião, é excessivamente pessimista. Acho que já não há caminho de retorno para certas conquistas do pluralismo e que os islamistas vão ter de lidar com isso.
Nas uns meses atrás, quando alguns escreviam isto, não passavam de uns tontinhos que não estavam a ver o filme... Eu incluído
pedro picoito a 30 de Janeiro de 2012 às 14:17
Não, o que os tontinhos disseram não foi isto: foi que a primavera árabe iria levar automaticamente a democracias seculares e pluralistas nos países árabes assim que houvesse eleições, sem sequer admitirem a hipótese retrocessos ou azares pelo caminho, como por exemplo a eleição mais que previsível de partidos islamistas. E deveríamos todos alegrar-nos com isso e quem não se alegrasse, ou manifestasse algum cepticismo, ou previsse os previsíveis azares, era simpaticamente apelidado de cínico, no melhor dos casos, ou racista, no pior. Eu incluído. Lembro-me até de um comentário aqui no Cachimbo em que o Luís Naves dizia que qualquer dúvida sobre os manhãs que cantavam no Egipto era um enorme desrespeito por uma civilização milenar. As pirâmides são maravilhosas: servem de princípio constitucional, prova de bons sentimentos e arma de arremesso contra criptofascistas em Lisboa. Infelizmente, só ainda não derrubaram os generais que ainda estão no poder nem deram a vitória nas eleições aos manifestantes da Praça Tahrir. O Luís Naves e outros militantes do idealismo bem podiam assinar aquela frase que se via nas ruas de Paris no Maio de 68: não vos preocupeis, é a realidade que se engana.
Este comentário distorce opiniões minhas da época ou do Pedro Correia, por exemplo, mas estas coisas são fáceis de verificar. Se consultar o que na altura escrevemos no Albergue Espanhol, verá que nunca usámos expressões sobre manhãs que cantavam. O meu argumento essencial da altura era de que existia uma oportunidade para a democracia e que os cenários de catástrofe inevitável não mudavam nada, aquilo ia na mesma para a frente (não sabíamos o que daria, mas ia para a frente). Em relação ao comentário que fiz neste blogue, acho que tinha mais razão do que o post .
pedro picoito a 31 de Janeiro de 2012 às 12:48
Parabéns. Bem-vindo ao clube dos génios incompreendidos.
vasco silveira a 30 de Janeiro de 2012 às 12:46
..."impor ao mundo árabe um princípio de legitimidade que não vem da vontade divina, da sucessão dinástica ou da força das armas, mas do voto popular."
Sou muito céptico quanto a isso. Os movimentos muçulmano são adeptos de uma votação, para subirem ao poder, mas não são grandes adeptos de a repetirem. A não ser que seja num modelo iraniano...
Quanto ao modelo Turco , e o seu "suave" partido islâmico, volto a ser céptico: a Turquia tinha um regime democrático ancorado nos militares, que por várias vezes o interroperam quando este lhes parecia contra o seus princípios ou disfuncional.
Um dos grandes trabalhos de Erdogan tem sido a descredibilização e a retirada dos poderes dos militares. Tenho dúvidas que o AZK se mantenha tão suave se conseguir os seus intentos. Os sinais mais recentes de autoritarismo do regime não auguram muita suavidade...
pedro picoito a 30 de Janeiro de 2012 às 14:51
É claro que existe sempre o perigo de os islamistas acabarem com as eleições depois de as ganharem, mas o princípio fica consagrado ipso facto e isso não deve ser subestimado.Por outro lado, os tempos agora são outros: há uma nova geração que já cresceu secularizada e ocidentalizada. Não acredito, nem no Egipto nem na Turquia, que estejam dispostos a abdicar do voto depois de o experimentarem. Mesmo na Turquia, que tem vindo aos poucos a fazer as reformas exigidas pela UE para ser uma democracia plena, os partidos islamistas tiveram de se adaptar, e mais do que lhe parece. Não acredito nos bons sentimentos do Islão político (como não acredito nos bons sentimentos de nenhuma teocracia), mas são as próprias circunstãncias que estão a obrigar os partidos islamistas a mudar.