Fim do euro (8) Ainda a falência do BCE

Nos comentários ao post anterior o Nuno Teles sugeriu que se tomasse em consideração não os capitais próprios do BCE, mas de todo o Eurosistema. Não concordo e tenho a certeza que pelo menos um dos membros do Eurosistema, o Bundesbank, estará radicalmente contra uma tal leitura.

 

O Bundesbank tem-se oposto sempre às compras de dívida soberana pelo BCE e isto já conduziu à demissão de Jürgen Stark, representante do banco alemão no BCE. O Bundesbank opôs-se a que o BCE tomasse risco dessas compras, mas o risco seria sempre do BCE. Se o Bundesbank estivesse a assumir explicitamente risco associado a estas compras tinha-as pura e simplesmente vetado.

 

Mas é óbvio que, como maior accionista do BCE, o Bundesbank tem estado a assumir implicitamente este risco. O dia em que o risco passar de implícito para explícito não vai ser nada bonito. Neste momento os alemães já são os mais poderosos em termos económicos, mas a partir daí vão ganhar outro poder: a autoridade moral. Não custa nada imaginar os alemães a quererem assumir o controlo muito mais explícito de tudo no BCE, como já o estão a tentar fazer no lado orçamental. Para além de que a fúria que isso vai criar no eleitorado alemão não vai ajudar em nada a construir soluções para a sobrevivência do euro.

 

De acordo com esta notícia, que indica que a Grécia planeia uma saída ordeira do euro, aquele dia pode não estar longe. No dia em que a Grécia sair do euro já não vai ser possível esconder mais nada. As perdas do BCE com a Grécia não só terão que ser assumidas, como virão agravadas com o facto de, quase de certeza absoluta, a dívida grega passar a ser denominada em dracmas, uma moeda que deverá sofrer uma depreciação brutal face ao euro.

 

A falência técnica do BCE terá que ser tornada pública então. Mas o problema não é, em primeira aproximação, económico. As perdas de 30 mil milhões de euros que o BCE sofreu (provavelmente avaliando a dívida aos preços de mercado) significam apenas 0,3% do PIB da zona do euro, pelo que não há nada de dramático nesta vertente. Não haverá a mais leve dificuldade em repor a solvência do BCE.

 

O problema principal é de outra natureza, política e simbólica. O BCE cometeu erros de tal magnitude que a saída (que jamais aconteceria) de um país minúsculo (representando apenas 2% do PIB da zona do euro) o colocou em situação de falência técnica. Do ponto de vista simbólico isto é catastrófico.

 

Quem é que ainda poderá acreditar que as pessoas que conduziram o BCE a esta situação são capazes de salvar o euro? Aqui é que entram de novo as questões económicas. A queda abrupta de confiança no euro deverá explodir a expectativa de desagregação da moeda europeia, levar a uma escalada de taxas de juro de longo prazo e o BCE já não poderá fazer nada para a conter porque, como é óbvio, vai ficar proibido de aplicar o instrumento que o conduziu à falência técnica.

 

O FEEF poderá substituir o BCE nessas compras, como deveria tê-lo feito muito antes, permitindo ganhar algum tempo (meses? semanas?). Este episódio não será ainda o final do euro, mas estaremos muito próximo do fim. 

publicado por Pedro Braz Teixeira às 18:43 | partilhar