Fim do euro (12) Os fracassos do euro

O euro nasceu muito mais por razões políticas do que económicas e, por isso, é em termos políticos que deve ser avaliado em primeiro lugar.

 

A construção europeia teve – e tem – como objectivo último a paz na Europa, para evitar a repetição dos desastres das duas primeiras guerras mundiais. Para os mais duros (ou mais lúcidos?) o verdadeiro objectivo da UE é conter a Alemanha, que iniciou aquelas guerras.

 

Com a queda do muro de Berlim, em 1989, abriu-se o caminho para a (natural) reunificação alemã, cuja concretização encontrou (inesperadas?) resistências por parte dos seus parceiros europeus. Após negociações tensas e difíceis, a Alemanha foi forçada a abdicar do marco alemão, a ser substituído por uma nova moeda europeia, que tinha o objectivo (mal escondido) de conter o poder de uma Alemanha reunificada. Só com uma enorme dose de voluntarismo é que o chanceler Helmut Kohl conseguiu “vender” esta ideia a um desconfiadíssimo eleitorado alemão e a um ainda mais reticente Bundesbank.

 

Façamos então uma avaliação política do euro. O euro tem contribuído para a paz na Europa? De maneira nenhuma. Desde que se iniciou a crise do euro, em 2009, apenas uma década após o seu início, temos assistido a uma escalada de conflitos, por enquanto apenas verbais, entre os países europeus, numa escala nunca antes vista.

 

O euro tem ajudado a conter a Alemanha? Podem parar de rir. Mesmo os mais distraídos têm que confessar que o euro ofereceu um protagonismo totalmente desproporcionado aos alemães, que nunca teria existido se se mantivessem as moedas nacionais.

 

Temos assim que concluir que, em relação ao objectivo supremo da construção europeia, quer este objectivo seja lido na sua vertente mais idílica (a paz), quer na sua vertente mais pragmática (a contenção da Alemanha), o euro se tem revelado um fracasso total e completo.

 

E em termos económicos? O primeiro problema com que nos defrontamos nesta avaliação é a dificuldade em encontrar referenciais, porque, em termos económicos, o euro é uma solução para um problema que não existia.

 

A falsa sensação de segurança proporcionada pelo euro levou a banca dos países superavitários a comprar a dívida dos países deficitários. Para os que estão iludidos sobre os grandes ganhos económicos que a Alemanha teria obtido com o euro, é importante salientar que a Alemanha vendeu muito ao Sul, mas o problema é que este Sul pediu emprestado à Alemanha para lhe pagar os produtos alemães.

 

No caso da Grécia, em que vai haver um perdão da dívida de cerca de 70%, foi um péssimo negócio exportar para esse país e agora só receber 30% do valor que se vendeu. Se tivesse permanecido fora do euro, a Grécia nunca teria chegado ao ponto a que chegou, nunca teria recorrido tanto a investidores externos, porque os sinais de alarme já teriam soado há imensos anos e nunca teriam permitido que a situação se degradasse até ao nível que foi revelado em 2009.

 

O caso da Grécia é o mais exemplar dos problemas económicos do euro. A moeda única permitiu um acumular avultadíssimo de desequilíbrios, que não poderiam acontecer se eles ainda tivessem o dracma. Mas agora que estão em condições péssimas não podem usar o instrumento precioso da desvalorização, porque estão no euro. É difícil imaginar uma combinação mais ingrata do que aquela que o euro trouxe à Grécia. Primeiro deixou-os acumular problemas e depois priva-os de instrumentos para os corrigir. Esta ausência dos instrumentos cambial e monetário torna o instrumento orçamental quase o único disponível, obrigando a um ajustamento muito mais violento nas contas públicas.

 

Esta violência pode trazer um novo fracasso político ao euro. Fala-se na hipótese de um novo golpe militar na Grécia, trazendo o fim da democracia, o que seria a suprema ironia, dado este país ser o berço do conceito – e da palavra – “democracia”.

 

O projecto do euro fracassou em tantas frentes que a única solução razoável poderá ser o fim negociado do euro, havendo dúvidas – fundadas – que talvez já seja tarde demais para isso. 

 

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publicado por Pedro Braz Teixeira às 08:20 | comentar | partilhar