Fim do euro (23) Preço das acções

Os preços das acções também devem ser altamente afectados pela saída do euro, mas aqui não há regras simples para os preços, mas apenas para certas componentes. Há aqui duas distinções importantes a fazer.

 

A primeira distinção a fazer é entre os lucros obtidos em Portugal e os obtidos no exterior. Muitas empresas do PSI-20 já têm operações muito significativas no exterior. O exterior deverá ser distinguido entre vários grupos de países. Um primeiro grupo, com moedas mais ou menos indexadas ao dólar (como o Brasil), que deverão valorizar-se face ao euro e, por maioria de razão, em relação à nova moeda portuguesa.

 

Um segundo grupo, de países que quase de certeza que acompanharão a saída de Portugal do euro, como a Espanha. Um terceiro grupo de países que, não pertencendo ao euro, estão sob a área de influência desta moeda, do lado dos fracos, como é o caso da Polónia. É quase certo que a Polónia deverá assistir a uma depreciação da sua moeda, caso os países do Sul da Europa saiam do euro. Há também um quarto grupo de países, correlacionados com a parte forte do euro, como a Dinamarca, a Noruega, a Suécia e a Suíça.

 

Finalmente o quinto grupo seria constituído pelos países sem uma relação clara quer com o dólar, quer com o euro, mas frente a cujas moedas o novo escudo se deverá depreciar. A nova moeda portuguesa talvez não se deprecie muito face ao segundo e terceiro grupos referidos, mas em relação aos outros grupos deverá depreciar-se de forma significativa.

 

A segunda distinção importante a considerar é a existente entre os lucros das actividades em Portugal que se destinam ao mercado nacional e as que se destinam à exportação ou são substitutas de importações. Há aqui um esclarecimento a fazer, para evitar confusões, entre operações fora de Portugal e operações em Portugal destinadas à exportação. Uma fábrica na Tunísia ou um serviço de distribuição na Polónia são actividades abrangidas pela primeira distinção, já referida.

 

Uma fábrica de cortiça em Portugal, que exporta para os EUA, é abrangida nesta segunda distinção. Em geral, os lucros das exportadoras portuguesas deverão subir drasticamente, excepto no caso de empresas muito endividadas, que deverão ver os seus custos financeiros explodir. Infelizmente, a esmagadora maioria das empresas cotadas não é exportadora.

 

As empresas que trabalham para o mercado interno vão ver as suas condições deteriorarem-se fortemente, quer pela redução drástica do poder de compra dos portugueses, quer pelo agravamento das condições de financiamento. Por isso, as suas cotações deverão sofrer grandes perdas.

 

No caso de grandes conglomerados, como a Jerónimo Martins e a Sonae, é previsível que façam o caminho inverso ao que fizeram com a entrada no euro. Então, as actividades industriais perderam peso, tendo as actividades comerciais ganho protagonismo. Agora deverá ocorrer o inverso, o que lhes dá margem de manobra para se adaptarem às novas condições.

 

A banca é um sector que exige uma análise específica. Desde logo, tem que se admitir que os bancos portugueses têm participações significativas em empresas que não têm rigorosamente nada a ver com o negócio bancário, como é o caso do BES na PT. Para além disso, alguns bancos portugueses têm inúmeros negócios bancários fora de Portugal.

 

Mas o risco principal – de que é obrigatório falar – é que uma má gestão da saída do euro pode levar à falência dos maiores bancos portugueses. Insisto neste ponto: não tem que ser assim, mas pode acontecer, se não forem tomadas as devidas precauções. Os bancos podem não desaparecer, se o Estado português os nacionalizar, mas o valor das suas acções pode descer para zero. Neste momento as acções dos bancos portugueses apresentam já o maior risco de todos e não surpreende que alguns deles tenham visto as suas cotações descer para valores próximo de 10% do seu valor nominal. 

publicado por Pedro Braz Teixeira às 08:59 | comentar | partilhar