Ainda vamos acabar por beber electricidade!

 

A Água será este ano um tema sensível em Portugal, motivos não faltarão: a seca;  a possibilidade de reactivação do plano de transvases espanhol; e a possível revisão dos caudais desviados dos rios internacionais. A agricultura, destinatário principal do consumo, já sofre com a falta de água e quando chegar o verão vamos ver como vão sobreviver as populações das localidades do interior e litoral sul. O tema voltará à actualidade política nacional muito em breve, até porque, de acordo com o recente inquérito do Eurobarómetro 98% dos portugueses já estão preocupados com as secas.

 

A gestão da água que Portugal dispõe nas suas principais bacias hidrográficas está profundamente interligada com Espanha. O Governo Espanhol suspendeu em 2004 o plano nacional de transvases que se destinava a suprir a falta de água do sul do país, mas esta suspensão teve uma espécie de contrapartida, que parecia ser também uma solução para a crónica falta de água, o licenciamento de grandes estações dessalinizadores a construir na costa sul. Das mega-centrais de dessalinização planeadas creio que poucas avançaram mas, mesmo assim, Espanha conta hoje com mais de 700 estações de dessalinização, tem uma capacidade instalada equivalente a aproximadamente 1.600.000 m3/dia (o suficiente para abastecer toda a população de Portugal, a níveis de consumo superiores aos recomendáveis pela OMS), capacidade que é a maior no mundo ocidental; e tem um verdadeiro cluster de empresas que fornecem soluções e equipamentos desde o Médio Oriente à Austrália, passando pelos EUA e Reino Unido.

 

Os governos espanhóis não têm olhado a meios para resolver o problema da água, tentaram de tudo um pouco: do sobre dimensionamento das albufeiras; aos megalómanos transvases, mesmo de rios internacionais; passando pela produção de água dessalinizada. A aplicação dessa água desviada ou dessalinizada é, nalguns dos casos, que não o consumo humano, muito questionável, nomeadamente na agricultura de regadio no centro e sul da Península. O preço da água em Espanha é, na generalidade dos casos, altamente subsidiado para a actividade agrícola não reflectindo o custo económico e social da sua produção e disponibilização. Infelizmente alguns destes custos estão do nosso lado, em Portugal.

 

O plano espanhol de dessalinização de água parecia ser aquele que poderia conter menos riscos para Portugal, a subsidiação e a internalização dos custos, a existir, seria feita em Espanha. Acresce que, a dessalinização de água do mar conjugada com a elevada produção de electricidade por fontes renováveis disponível em Espanha, como a eólica e a solar, com as suas características de intermitência poderiam oferecer ao sistema eléctrico uma solução parcial para “acumular energia”  nas horas de maior vazio (a cava do diagrama de carga): produzindo água dessalinizada.

 

Suspeito que a motivação do Governo Espanhol para o renascimento do plano de transvases é o facto da indústria da construção cívil estar parada - a continuação do plano de transvases é fundamental para reanimar a actividade das empresas da construção espanholas. Há que aguardar pelas reacções das regiões afectadas por esta intenção do Governo, pois não são integralmente favoráveis ao plano.

 

Quanto a Portugal, os relatórios das Nações Unidas não vislumbram um futuro climatologicamente muito promissor, se as coisas mudam do lado de lá da fronteira e a Natureza não colabora, nós é que vamos acabar por ter que “beber electricidade” (água do mar dessalinizada).

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publicado por Victor Tavares Morais às 10:53 | partilhar