Democratização da economia

 

Quem assistiu, mesmo sem especial atenção, como foi o meu caso, ao Congresso do PSD, não deixou de notar que se tratou de um Congresso simples, sem encenações espectaculares. No mesmo sentido, não passou despercebido o facto de este Primeiro-Ministro falar directamente aos portugueses, sem o recurso ao teleponto. Finalmente, quem está imune aos rodapés mediáticos, onde se destacavam afirmações como “quando se tem um martelo na mão, tudo parece um prego”, verificou que os discursos do Primeiro-Ministro têm substância. Exemplo disso mesmo é a questão da democratização da economia, que serve de objecto ao artigo de opinião que o Paulo Rangel deixa hoje no PÚBLICO. A questão da democratização da economia (assim como a questão da sociedade de confiança) já tinha merecido a atenção do Pedro Lomba há uns meses, no mesmo jornal. Que os discursos do actual Primeiro-Ministro contenham elementos capazes de se constituir como objecto de análises conceptuais é um outro aspecto distintivo que não pode deixar de ser destacado face à nossa experiência política mais recente. Se bem recordo, a expressão “democratização da economia” foi referida publicamente pela primeira vez pelo Primeiro-Ministro na Mensagem de Natal. Na análise de hoje do Paulo Rangel, a democratização da economia é interpretada à luz da tensão política entre igualdade e liberdade, democracia e liberalismo. Neste sentido, o projecto do actual Governo não é apenas liberal mas também democrático, não se trata apenas de libertação mas também de reposição do equilíbrio original. Talvez a afirmação mais esclarecedora de Paulo Rangel seja mesmo aquela onde ele parece dizer que uma sociedade estatizada, como a nossa, precisa de ser liberalizada, mas que a libertação do Estado face aos interesses que o colonizam não pode deixar de ter igualmente em conta os perigos de uma subsequente colonização da sociedade por parte desses mesmos interesses ou até de outros. A este respeito, a Mensagem de Natal do Primeiro-Ministro é muito clara: a construção da riqueza de Portugal tem de nascer de baixo para cima, a partir das actividades e projectos das pessoas comuns, e não apenas de um grupo restrito de pessoas com acesso privilegiado ao poder ou com a boa fortuna de terem nascido na protecção do conforto económico. Dado o ponto de onde partimos hoje, sou levado a concluir que esta enormíssima reforma não pode deixar de exigir uma acção forte do Governo e não será por isso que o seu alcance liberalizador fica diminuído. Tal como não me custa nada conceber a necessidade de haver um Governo forte para fazer face aos interesses desproporcionados que facilmente conseguirão transitar do Estado para a sociedade. Prudente é a liberdade que tem o olho direito posto na democracia igualitária e o olho esquerdo posto na oligarquia.

publicado por Nuno Lobo às 12:46 | partilhar