Ideologia, disse ela (3)


Continuando. A Ana Matos Pires prossegue a sua revisão da matéria, no caso concreto dos efeitos da homoparentalidade nas crianças, atirando-se aos estudos que citei sobre instabilidade das relações e violência doméstica nos casais homossexuais. Ao que parece, não se podem citar livros de 1973 e mesmo um artigo de 1997 já não é assim tão recente. Este ponto, que foi repetidamente invocado até agora, merecia um desenvolvimento à parte, mas fico-me só pela seguinte consideração: o que foi dito em 73 ou em 97 não se torna desactualizado por ser de 73 ou 97, mas por se terem publicado estudos mais recentes que contraditam e refutam os de 73 ou 97. Ora, todos os estudos posteriores a que tive acesso reforçam a conclusão da maior instabilidade das relações homossexuais comparativamente às heterossexuais.

Mais: diz a Ana Matos Pires que não posso concluir isso porque não apresento "um único estudo comparativo entre casais homo e heterossexuais". Bem, se o problema é esse, resolve-se. Em 2003, uma equipa liderada por Theodorus Sandfort publicou um estudo comparando casais hetero e homo na Holanda ("Same-sex sexuality and quality of life", in Archives of Sexual Behavior, Feb. 2003, 32, 1, pp. 15-22),  acabando por concluir também que há maior promiscuidade entre os casais homo. Um outro trabalho que já citei (sejamos pacientes), com a data obscurantista de 1994 e a amostra não tão obscurantista de quase 3500 americanos, era enfático: "in all cases, when we dichotomize our sample, the group of people with same-gender partners (or who define themselves as homosexual or bisexual) have higher average numbers of partners then the rest of the sexually active people in the sample" (Edward Laumann et al., The Social Organization of Sexuality. Sexual Practices in the United States, Chicago, The University of Chicago Press, 1994, p. 314).

Garanto que não é má vontade, mas que culpa tenho eu se os estudos existem e andam por aí à solta? 

Já dizer que a tal investigação de 97 sobre os comportamentos de 2583 homossexuais "em nenhum momento permite inferências sobre promiscuidade", bem, é gozar um bocadinho com o respeitável público. Então vamos lá repetir: "the modal range for number of sexual partners ever was 101-500" (Paul Van de Ven et al., "A comparative demographic and sexual profile of older hmosexually active men", in Journal of Sex Research, 1997, 34, p. 354). Além disso, entre 10,2 e 15,7% dos indivíduos da amostra tiveram entre 501 e 1000 parceiros e outros 10,2 a 15,7% mais de 1000. Se a Ana Matos Pires acha que nada se pode inferir daqui, então pergunto-me como definirá promiscuidade. Talvez uma relação simultânea com a população chinesa.  Incluindo os mortos. (cont.)
publicado por Pedro Picoito às 17:31 | partilhar