Fim do euro (27) Bonança antes da tempestade

Nas últimas semanas tem havido uma acalmia generalizada, que parece ter trazido alguma complacência às autoridades europeias. No entanto, este recente optimismo parece claramente injustificado, como veremos.

 

Comecemos por situar as boas notícias recentes no contexto mais vasto da crise. Usemos para isso as taxas de juro de longo prazo, que são um dos mais interessantes termómetros da crise do euro.

 

Vejamos as taxas portuguesas, em Setembro de 2009, quando os problemas na Grécia ainda não se tinham manifestado. Antes da crise, as taxas de juro portuguesas estavam abaixo dos 4%, um nível que hoje nos parece de um outro planeta.

 

Com o desenrolar da crise na Grécia, as taxas portuguesas foram subindo atingindo um pico de 6,1% quando a Grécia pediu ajuda, em Maio de 2010, para voltarem a cair logo de seguida abaixo dos 5%, como se tudo se tivesse resolvido. Mas isto também foi sol de pouca dura, com a escalada dos juros a prosseguir ao longo desse ano, até atingir um novo máximo de 7%, em Novembro desse ano, por alturas do pedido de ajuda da Irlanda, quando se temeu, com toda a razão, que Portugal também precisasse de ajuda.

 

Após um ligeiro recuo, as taxas de juro portuguesas foram batendo sucessivos novos máximos, sempre acima dos 7%, valor que – da forma mais imprudente – o então ministro Teixeira dos Santos definiu como o patamar a partir do qual teríamos que pedir ajuda. Apesar disso, o governo adiou o pedido de ajuda até ao último momento, sendo hoje cada vez mais claro que provocou toda a oposição e o Presidente da República para ser demitido, para poder jogar a última carta que lhe sobrava: a vitimização.

 

Sócrates ainda teve a ilusão de que poderia adiar o pedido de ajuda para depois das eleições, mas em Abril houve uma nova subida descontrolada dos juros, que quase tocaram os 9%, o sinal definitivo de que Portugal precisava de ajuda externa.

 

A partir daí, os juros não deram tréguas, até porque se começou a falar num segundo pacote de ajuda à Grécia, que seria acordado em Julho, mas – pasmem! – só ficou concluído este mês. Portugal não seria a Grécia, mas estava perigosamente parecido, com os juros a tocaram quase nos 13%.

 

Após alguma calmaria, houve novos máximos dos juros portugueses em Novembro passado, já acima dos 13%, quando a Europa, e em particular a Itália, esteve a três passos do precipício. A promessa de uma cimeira “decisiva” no início de Dezembro viria a acalmar os mercados, mesmo se os resultados deste encontro foram escassíssimos.

 

Já em 2012, as incertezas sobre a resolução do segundo pacote de ajuda à Grécia, com os inevitáveis contágios ao nosso país levaram as taxas de juro portuguesas a fixar novos máximos, quase nos 18%. Graças à intervenção do BCE, como já tinha acontecido antes, as taxas voltaram a cair para os 12%, tendo posteriormente flutuado entre este valor e os 14%. 

 

Julgo que já conseguiram detectar o padrão da evolução dos juros de longo prazo: sobem para máximos, depois aliviam um pouco, até que batem novos máximos. Os juros vão flutuando, mas em torno de um patamar que está sempre a subir. Um outro elemento a salientar é que os juros sobem em Portugal muitas vezes devido a perturbações no exterior.

 

Depois de descrito este enquadramento vejamos afinal o que se celebra por estes dias. A taxa de juro de longo prazo da dívida portuguesa baixou de 14% em meados de Março para um valor ligeiramente acima dos 12%. Ou seja, não estamos sequer com os melhores valores de 2012 e pior ainda se comparados com os anos anteriores.

 

Porque é que acredito que isto é uma mera bonança antes da tempestade? Em primeiro lugar, porque os graves problemas estruturais do euro continuam intactos, não justificando o recente optimismo. Em segundo lugar, porque a probabilidade de a Grécia sair do euro nos próximos meses é muito elevada e os riscos de contágio a Portugal são elevadíssimos.

 

[Publicado no jornal “i”]

publicado por Pedro Braz Teixeira às 18:51 | comentar | partilhar