Ideologia, disse ela (4)


Continuemos, pois. A Ana Matos Pires acusa-me também de não referir "um único estudo (...) sobre o efeito do número de parceiros dos progenitores sobre o desenvolvimento das crianças".

Eis um bom exemplo do que chamo ideologia. É verdade que não refiro estudos sobre a relação entre uma coisa e outra. Nem sei se existem. Aliás, parece-me uma evidência do senso comum, comprovada por quem conheça casos da vida real, que a adaptação de uma criança ao(s) novo(s) parceiro(s) da mãe ou do pai nem sempre é fácil. Não vejo por que razão o facto de o(s) novo(s) parceiro(s) ser(em) LGBT a tornaria menos difícil. Mas o que referi, e abundantemente, foram estudos que provam a maior instabilidade das relações homossexuais comparativamente às hetero. Alguns autores relacionam essa variável com a promiscuidade (o tal "número de parceiros"), uma conclusão que não será assim a modos que inesperada.

Ora, a instabilidade da família de acolhimento é um dos maiores factores de risco para o desenvolvimento das crianças adoptadas, como a literatura científica mostra com meridiana clareza (ver, por exemplo, Rae Newton et al., "Children and youth in foster care. Disentangling the relationship between problem behaviors and number of placements", in Child Abuse and Neglect, 2000, 24, 10, pp. 1363-1374). Iludir a relação entre estes vários elementos, porque nenhum estudo a faz, é descoversar. Imaginemos que um estudo da precipitação média no Egipto conclui que o clima egípcio é seco. Imaginemos que outro estudo da precipitação média na Escócia conclui que o clima escocês é húmido. Segundo a Ana Matos Pires, nada nos autoriza a dizer que o clima egípcio é mais seco que o escocês ou o escocês mais húmido que o egípcio - a menos que um terceiro estudo os compare directamente. Até pode ser muito científico, mas de nada serve a quem queira viajar do Cairo para Edimburgo, ou vice-versa, e pergunte se deve levar um guarda-chuva.

Seguem-se os dados sobre violência doméstica. Ao que parece, os que retirei de "um livro sem peer review" não têm validade científica (embora Pedro Morgado, num comentário aqui no Cachimbo citado pela Ana Matos Pires, diga que podem ser objecto de debate público - o que relativiza um pouco o monopólio das revistas científicas na matéria, acrescento). Como já disse sobre datas de publicação, e sem prejuízo da praxe disciplinar das ciências médicas ou da psicologia, em ciência o que refuta os dados são os dados posteriores que os corrigem ou contraditam - não é necessariamente o suporte em que se publicam. Resumir a credibilidade científica às revistas com peer review é marginalizar a investigação que segue outras vias (livros, teses, artigos de divulgação de qualidade). E revela alguma estreiteza de vistas. Ou a vontade de encerrar a questão na academia. Quanto ao artigo sobre a violência entre lésbicas, reconheço que o abstract parece contrariar os dados que citei. Como nem a Ana Matos Pires nem a revisora põem em causa esses dados, anoto que há uma contradição entre o abstract e o conteúdo do artigo. Uma contradição que a Ana não explica. 

Já agora, nunca disse que a violência doméstica, ou outro comportamento, depende da orientação sexual. Disse, isso sim, que a homossexualidade está ligada a uma cultura em que certos comportamentos são maioritários. Nem todos os homossexuais os terão e nada impede que essa cultura mude. (cont.) 
publicado por Pedro Picoito às 17:16 | partilhar