Dois modelos e um abraço

 

Está aí a eleição presidencial francesa, e ao contrário do que inicialmente parecia ser um factor distintivo dos candidatos, o modelo energético francês não chegou a ser seriamente posto em causa. Com Sarkozy e Mélenchon claramente do lado pró-nuclear, François Hollande limitou-se a um acordo com os ecologistas para uma redução da dependência energética francesa da energia nuclear dos actuais 75% para os 50% em 2025 – a montanha pariu pouco mais do que um rato. Ficou claro, mesmo antes de conhecermos os resultados eleitorais, que a França vai manter o seu modelo energético. Do outro lado está a Alemanha, que fez saber no ano passado que iria desactivar as suas centrais nucleares até 2022. Parece evidente que vamos ter na Europa, pelo menos, dois modelos energéticos distintos, o francês e o alemão. No “clube francês" alinham o Reino Unido, a Holanda, a Polónia e a República Checa, do lado alemão, parecem já estar cativados: a Áustria, a Suíça e a Itália.

 

Se em França é a manutenção do status quo, e portanto a incerteza não é condição determinante, já o modelo alemão convoca aos especialistas e políticos todas as dúvidas e perplexidades – Como vai um país altamente industrializado revolucionar o seu modelo energético sem comprometer a sua competitividade económica? Qual o significado político desta mudança? O objectivo alemão é de ter 30% de renováveis até 2020 e 100% em 2050. A produção renovável vai exigir uma capacidade de “back-up” muito considerável que só as centrais a gás parecem poder oferecer, o que também significa, que o modelo energético desejado vai deixar a Alemanha ainda mais dependente do gás russo.

 

Com a mudança do modelo energético alemão, algo muito significativo poderá estar a acontecer na Europa – uma maior aproximação de Berlim a Moscovo, com todas as implicações políticas daí decorrentes. O que ontem poderia parecer ter carácter especulativo, com a saída de Gerhard Schröder directamente da chancelaria alemã para a petrolífera russa, tem hoje da observação dos factos recentes, um significado muito concreto. Por exemplo, quando a Rússia desvia, desde o início deste ano, parte significativa do gás com destino à Alemanha dos gasodutos ucranianos (privando a Ucrânia dos proveitos desse trânsito) para o recentemente construído gasoduto russo do Mar do Norte (Nord Stream), que liga a Rússia directamente à Alemanha.

 

Em breve, ao abraço do urso poderão sucumbir a leste, por asfixia económica, países como a Ucrânia, mas desenganem-se, os que pensam que não é nada connosco - o “bafo” do urso também se fará sentir a oeste.

(continua)

publicado por Victor Tavares Morais às 09:58 | comentar | partilhar