'Chronik der Anna Magdalena Bach' - Quando um filme se faz música

 

Ontem, a cinemateca brindou-nos com um filme excepcionalmente raro:Chronik der Anna Magdalena Bach. Para o realizar, o casal Straub-Huillet despendeu cerca de dez anos em viagens, pesquisas, bem como no estudo das cartas do compositor e das respectivas partituras. Ao que parece, a estreia do filme no festival de Utrecht, em 1968, suscitou enorme polémica. Muitos o criticaram ao considerarem que planos fixos e longos durante mais de uma hora e meia a mostrarem músicos a executar a música de Bach nada tem que ver com cinema. Talvez, estas críticas façam sentido. Com efeito, neste filme, a música não é um acompanhamento da narrativa, nem um complemento que a reforça: tal como diz o próprio Straub, aqui a música é usada como ‘matéria estética’. Mais do que expor a vida do compositor J. S. Bach no contexto da sua época, Straub faz-nos ver a herança que essa vida nos deixou: a música que resiste à erosão do tempo e da permanente alternância de estilos e de gostos consoante a época em que nos encontramos. Talvez por isso, Straub,em vez de escolher um actor exímio para representar Bach, escolheu o cravista Gustav Leonhardt para interpretar a sua obra. Talvez, por isso, raramente ouvimos Bach falar; é a sua mulher quem nos conta a história. Bach limita-se a deliciar-nos com a sua obra e, ao longo de toda a narrativa musical, nunca vemos o seu rosto envelhecer.

Os planos praticamente imóveis durante o tempo de duração das peças pedem-nos que nos concentremos no essencial – a música de Bach, e não tanto a sua pessoa. Desta forma, o filme faz-nos viver uma experiência estética que coloca diante de nós um enigma – talvez mistério – difícil de engendrar. Apesar de Bach ter escrito a sua obra a partir da cosmovisão de uma época já passada, a partir de uma religião e de uma espiritualidade particular, a partir de uma linguagem estética que já não vigora entre nós, foi capaz de criar uma obra que continua a tocar os nossos corações. Bach parece ter sido capaz de exprimir a essência da Vida, do Homem, do Mundo; parece ter atingido o Absoluto a partir de uma tradição estética contingente. E por isso a sua música se mantém actual.

publicado por Andreas Lind às 11:22editado por Paulo Marcelo em 26/04/2012 às 12:20 | partilhar